Crônicas

Formulários

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Renovei o passaporte recentemente. Na verdade, segundo instruções do site da Polícia Federal, não se renova um passaporte, tira-se um novo. Isso me parece uma coisa meio sem sentido. Eles já sabem tudo da sua vida, mas você continua tendo que apresentar o CPF em papel e preenchendo a data de nascimento. Fazer o quê?…

O serviço prestado pela Polícia Federal, alvíssaras!, foi excelente. Não confundir com rápido: o intervalo entre o pagamento da taxa e a entrega do novo passaporte foi de quase um mês e meio (situações de emergência são resolvidas rapidamente, mas não era o caso).

Fui atendida com pontualidade e eficiência na data agendada para a entrega da documentação. O funcionário marcou uma nova data para ir buscar o passaporte lembrando que, antes desse dia, eu não poderia sair do país. Desnecessário: não tinha mesmo intenção de fugir. Motivo não faltaria em face da situação atual do Brasil, mas se aguentei até aqui acho que posso aguentar mais um pouco.

A solicitação do passaporte começa pelo preenchimento de um formulário on-line. Suponho, sem nenhuma comprovação, que deva ocorrer em outros formulários oficiais: onde antes se informava o nome do pai e o nome da mãe, agora aparece “Filiação 1” e “Filiação 2”. Com a permissão dada a casais de qualquer tipo para registrar filhos, é certamente mais adequado e justo. Pessoas que se dispõem a criar crianças com carinho merecem todo o meu respeito e aprovação.

A surpresa veio por conta do campo “sexo”, obrigatório no caso do requerente e optativo no caso da filiação. Deparei-me com três alternativas: masculino, feminino e não especificado.

Até onde eu sei, tirando algum problema de má formação ou alguma cirurgia mal sucedida, fisicamente as pessoas só vêm em dois modelos. Talvez o formulário queira que o desafortunado portador da anomalia torne pública a sua situação, porém é mais provável que, politicamente correto, queira contemplar quem não consegue se encaixar no modelo binário da natureza. Isso poderia ser facilmente evitado:

– Vim registrar uma criança.

– Qual o nome?

– Darci.

– Menino ou menina?

– Não especificado.

– Como assim?

– Darci tem todo o direito de escolher o sexo quando atingir a maioridade! Não cabe a mim decidir.

Em que momento da vida uma criatura se declara ou se torna de modelo não especificado? Quando está no meio de um processo de mudança entre masculino e feminino? O sexo do tipo não especificado é uma opção transitória ou permanente? Dá para ser volúvel no assunto e transitar livremente entre todas as alternativas? Tudo precisa ser pleiteado judicialmente ou basta uma declaração do usuário? Vocês sabiam que na Austrália já se reconhece o gênero neutro? E que na Alemanha pode-se atribuir sexo indefinido a um recém-nascido?

Discussões à parte, o sexo é uma característica física importante para identificar um indivíduo. Estamos falando de identificação civil, algo como a cor dos olhos ou as impressões digitais. Fiquei com a impressão de que, no fundo, o formulário solicita que a pessoa declare a sua orientação sexual. Ora, esse assunto é amplo demais para caber em apenas três opções, e ninguém tem nada com isso. Se a intenção é evitar constrangimentos a quem precisa de uma terceira alternativa, melhor ser radical de vez e desistir da pergunta sobre sexo.

Na requisição do passaporte há também um campo para “Raça ou cor”. É de preenchimento obrigatório, embora uma das alternativas seja “Não desejo declarar”… Acho que faltou a opção “Não sei”. Talvez também “Não sei se não sei”. O politicamente correto desvairado agradeceria.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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