Crônicas

Fotografia

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

A névoa invade a calçada irregular, enquanto uma jovem de 27 anos circunda trôpega uma poça de água podre, típica botafoguense pós chuva. Carrega um livro de capa dura recém “acabado-de-ler” em uma das mãos.

– É um bom livro, extraordinário, de fato. Paradoxalmente, há boatos sobre ser o autor um canalha da pior espécie.

Ninguém lhe dá muito crédito ou ouvidos àquela hora. São 14 colegas de trabalho, às 2h da madrugada desta terça-feira, a última grande mesa da rua. Cascos de 600 ml de cerveja amontoam-se por entre o tampo e o chão. Clara, numa imitação grotesca de atleta de parkour – ou circense iniciante – continua a contornar a poça, agora de um lado a outro, por sobre um canteiro de flores.

– Os canalhas são sempre extraordinários! Quem me dera conhecê-los a fundo com uma boa objetiva em punho…

Estava cansada daquilo tudo. Três vezes por semana, a mesma mesa, as mesmas pessoas, os mesmos assuntos. Por isso se rendera a trazer seus livros, um por um, para o happy hour que rotineiramente se estende noite a fora, agora dando uma dimensão ainda maior ao horário de verão. A mesma movimentada e emporcalha rua em Botafogo.

Anos atrás, quando ainda era universitária, costumava frequentar alguns barzinhos por ali, antes do cachorro-quente de R$0,99 instaurar o que hoje é um verdadeiro caos. Mais magra, mais alegre, mais descolada. Era fácil atrair olhares masculinos, flertar com alguns e, se rolasse alguma coisa… bom, era aquilo: uma noite de beijos ali na calçada, no máximo duas. Nada sério. Queria ser fotógrafa, vivia com uma analógica a tira colo. Com seus sorrisos e conversas inteligentes e ousadas, conseguia sempre um(a) voluntário(a) entre os presentes na rua como modelo. Inscreveu algumas dessas fotos em concursos nacionais e internacionais, tem 5 troféus e vários certificados em seu quarto.

A fotografia entrou muito cedo em sua vida. Os pais eram apaixonados pelo geringonça e revelavam muitos e muitos filmes. Clara se entretinha entre os negativos e fotos antigas, os padrões de tamanho mudaram ao longo dos anos até o corriqueiro 10×15. Gostava de bonecas, de jogos de tabuleiro e até de alguns carrinhos, mas seu melhor  brinquedo fora uma Polaroid, presente do avó em um natal. Toda a sua mesada era poupada para comprar cartuchos. Desde cedo, mostrara-se uma exímia fotógrafa.

Uma vez, numa série televisiva, a seguinte oração lhe revelou o que até então não conseguira expressar para si mesma: “Quando você fotografa alguém… É permanente. E você capturou a verdade da pessoa naquele momento e… isso você pode guardar para sempre”.

Depois que as digitais ganharam as prateleiras, os bolsos e os memory cards de todo o mundo, Clara montou seu quarto escuro para revelar ela mesma as suas fotos tão originais. Qual será o destino das fotos digitais no futuro?, pensava sempre. As antigas de papel estão guardadas em caixas e armários nas casas das famílias, são vendidas em sebo, sempre à espera dos apegados ao passado ou curiosos sobre as memórias alheias. Mas as digitais, essas que tiramos o tempo todo e de tudo? Para onde irão? HDs podem dar defeito, nuvens podem expirar. Só a revelação salva as fotografias da extinção.

Criou portfólios físico e online, fez alguns freelas, alguns eventos, escreveu artigos até. Criou cartões de visita, distribuíra 1/3 quando o destino lhe trouxe assessoria de imprensa para o currículo. O salário é bom, os colegas gente fina, o clima descontraído. A fotografia resumiu-se àquilo que se salva no celular; seu quarto escuro encontra-se trancado há tempos. Acomodou-se a vida do dia-a-dia, sem perceber. Seus sonhos e sua alegria foram murchando, pouco a pouco. Num piscar de olhos estava ali, equilibrando-se entre uma poça imunda e a conta das cervejas de terça-feira.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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