Crônicas

Fragmentos. O todo. Cores, pensamentos, atitudes e tecnologias

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Minha cabeça fervilha, vivo as coisas em dimensões diferentes, todas sincronizadas. Um só planeta. Fragmentos. Várias partes que não formam um todo. Músicas que amo e trechos de hinos e bandeiras espalhados por todos os lados. Trânsito e corridas de táxi impensáveis. “Não-opostos” que se atraem e ocupam o mesmo espaço. Não há só azul, vermelho e branco envolvidos. Há todas as cores, todas as etnias, todas as religiões e países. E situações.

AZUL para acalmar

É fim de ano no Rio de Janeiro, já é natal em todos os Shoppings, há obras por todos os lados e os percursos nos bairros mais afastados do centro e da Zona Sul tem seus percursos viários modificados constantemente, o que confunde até a cabeça dos taxistas.

Em Londres, para ser motorista de táxi, é exigida a realização de uma prova, mostrando a capacidade de cada aspirante a driver de memorizar todas as ruas da cidade na cabeça. Não tem essa de chegar num táxi e ligar o GPS do celular. Lá se confia no motorista e se desconfia da tecnologia para essas coisas. “Fantástico”, passa pela minha cabeça de urbanista e brasileira, principalmente porque, na nossa realidade, todos parecem pertencer a um mundo de dimensões reduzidas. Se eu moro em Bangu, sei os trajetos de Bangu, arredores e, muito provavelmente, partes do centro da cidade, ou pelo menos até onde a maioria trabalha. As praias da Zona Sul. Ok. Mas se você sai da mesma Zona Sul em direção ao Recreio e depois à Taquara, à trabalho, a dica é: estude o percurso previamente e sim, ligue o seu próprio GPS para acompanhar por onde o taxista vai lhe conduzindo.

Por experiência própria, até o Shopping Recreio, não é qualquer motorista particular que sabe exatamente como ir. E não se trata de uma referência qualquer: um centro comercial deveria ser ponto obrigatório de conhecimento para todos que trabalham com rodando pelas cidades. Uma ruazinha na Taquara, eu já entendo que é difícil mesmo. Mas o passageiro conduzir o taxista por todo o trajeto, até mesmo para chegar na Estrada dos Bandeirantes, aí é um pouco demais. Por vergonha, a corrida não deveria valer o taxímetro. No mínimo existir um bom desconto. Isso aconteceu duas vezes em um período de 7 dias comigo. Na segunda vez, em função das obras para as Olimpíadas, o carro amarelo de lista azul marinho deu tantas voltas… isso porque eu lhe dizia o caminho a ser feito, o que foi ignorado nos pontos mais críticos; na janela, o adesivo do Easy taxi, aplicativo para chamar ao invés de ligar. Ou seja: ele tinha GPS. E chegou em 3 minutos quando chamamos. Olhei para o céu e respirei fundo. Contei de 1 a 10 até o azul infinito acalmar minha indignação.

BRANCO de tudo às claras

Tocam músicas aleatórias no celular e eu apenas passo as que não tem a ver comigo hoje. “Todo mundo deveria tocar um instrumento”, penso, qualquer que fosse. A relação intrínseca que se constrói entre um músico e seu instrumento é extremamente glamourosa e atraente. Isso com certeza é um ponto a mais nas relações com o sexo oposto. Enquanto formulo a questão, dois homens sentam ao meu lado e trocam palavras entreouvidas e pequenos gestos de intimidade… acabo por me dar conta de que “sexo oposto” é um termo ultrapassado. Como o discman. O mundo está muito diferente do tempo em que eu vivia minha versão criança, onde as pessoas andavam por aí com seus fones de ouvidos grandes (que não eram os headsets da moda de hoje) acompanhados por uma caixa eletrônica de dimensões consideráveis em que se viam obrigadas a escutar um Compact Disc inteiro – que de compacto, na nossa concepção de mundo atual, não tinha nada -, ou a repetir a mesma música um sem número de vezes. Nada de rolar o dedinho por uma mini tela de plasma, como faz-se agora, e poder escutar canções desconhecidas e internacionais baixando diretamente do dispositivo móvel que nos acompanha 24h/dia, não importa onde estejamos, com quem ou o que estejamos fazendo. Se você não conhece a canção que está tocando em um bar, no seu primeiro encontro com o(a) parceiro(a) dos seus sonhos, existe o Shazan! Não o personagem das antigas, mas o app. Tudo está mudado, inclusive a forma do dia-a-dia da nossa gramática. Venho discursar a favor dos termos comuns de dois gêneros: todas as línguas deveriam tratar seus substantivos, adjetivos e pronomes como na língua inglesa. Tudo serve para “he” ou “she”. O mundo pede cada vez mais direitos iguais. Talvez fosse a hora de uma revolução gramatical universal. E de eletrônicos que tenham maior validade, como os discmans. Sigo pelas ruas com meu tocador das antigas escondido dentro da bolsa, embalada por um cd inteiro dos Beatles. Um ator passa por mim com uma cara tentadora, gigante em meio a camisinhas coloridas na publicidade externa do ônibus executivo. Os tabus estão sendo vencidos, pouco a pouco. Sexualidade é um ponto comum a todos os gêneros, discutido por todas as classes e faixas etárias. Assim fica tudo às claras, tudo branco.

VERMELHO amor e sangue

Me lembro da Paris envolta em nuvens, chuva e muito fria. A cidade luz que em minha memória de referências brilhava, frente aos olhos, por primeira vez, me revelava um quadro não tão resplandecente em fins de dezembro de 2013. Era meu primeiro réveillon fora do Brasil e tudo era amor, acompanhada do namorado, que viajara milhas e milhas para estar comigo nas comemorações de fins de ano. Torre Eiffel, Montparnasse, Petit Palais Grand Palais, Arco do Triunfo, Pantheon, Galerie Lafayette, Louvre, Notre Dame, o Rio Sena, as suas ruas, La Défense, a linha de metro perfeito, Gare de Lyon, trens, Parc de la Vilette, Sacré Coeur, Moulin Rouge e o charmosíssimo Montmartre.

Existem três cores na bandeira francesa; uma representa o azul do céu num dia ensolarado, que no verão permanece até perto das 22h, como pude constatar na minha segunda visita à cidade, com meus pais e irmã. Escondido pelas nuvens brancas, que simulam a segunda cor da flâmula, o céu de inverno. E amor. Muito amor. Paris é amor, é vermelha através da lente dos apaixonados.

Recebi uma mensagem ontem pela manhã de uma prima na Italia. Uma corrente para acender uma vela nas janelas de todas as casas, às 22h, para que não ficasse na memória apenas o brilho dos tiros pelas ruas de Paris, como também o bruxulear das luzes representando afeto e vida, acesas sem discriminação de credo, nação ou cor pelo mundo inteiro. Passei adiante para algumas poucas pessoas – as que eu tenho certeza que entrariam na corrente, levando a mensagem de fé adiante. Agora já passa da meia-noite; acendi minhas pequenas luzezinhas enquanto o Cristo Redentor vestia as três cores das bandeira francesa no céu de verão fora de época carioca. Acendi 1 na janela e 3 dentro de casa. Apaguei as luzes do apartamento e fiquei a refletir sobre a condição humana. Eu que me estressara com o taxista no dia anterior, continuo sem entender muito bem o que aconteceu na noite em que quase 200 pessoas morreram, em função de atentados. Ando numa dieta de notícias ruins, alimentada apenas pelo falatório das ruas, livros de literatura e músicas no meu Samsung 2 Chips já ultrapassado, alternando com as do meu discman que ainda funciona. Mas não deixei de me comover com a chacina. E de mandar luz para os que estão sofrendo.

Cheguei à conclusão de que uma cidade em fragmentos é uma nação em fragmentos e também um planeta em fragmentos compartilhados. Que frente a desgraças o homem mostra seu lado mais humano, e que terroristas deveriam pegar carona com os taxistas que temos aqui no Brasil. Quem sabe fossem mandados para outros lugares, por um GPS em prol da paz? Ou pelo menos ficassem rodando pelos caminhos errados e acabassem por refletir e desistir das atitudes de muito mal gosto envolvendo inocentes…

Porque hoje existem três cores na bandeira francesa; uma representa o sangue derramado, ainda quente, no coração descompassado dos que perderam pessoas queridas neste atentado miserável; outra, a necessária calma que virá com o tempo. A terceira, em forma de milhares de pontos de luz se junta à segunda e clama por paz.

Por hoje, deixo a mensagem tricolor de Paz, Amor e Fé para os parisienses.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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