Crônicas

Frio no Rio de Janeiro

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Ao primeiro sinal de frio, começam a surgir nas ruas do Rio os figurinos de inverno. Para as mulheres, botas, capas e echarpes. Para os homens, casaco e bermuda. Ninguém consegue explicar porque eles não sentem frio nas pernas. Talvez sintam, mas bermuda é o traje oficial masculino dos cariocas informais, e desconfio que alguns nem possuam mais do que um par de calças compridas, reservado apenas para ocasiões muito especiais. Quanto às botas, capas e echarpes, é preciso aproveitar toda e qualquer oportunidade para arejá-las: além do mofo que ataca peças guardadas por longo tempo, todo mundo sabe que os sapatos nessa situação têm tendência a descolar as solas por completo. Está explicado.

Quando o inverno ataca de verdade, o carioca se desespera. Já tirou do armário todo o seu arsenal, só lhe resta sofrer em silêncio. Ou reclamando. Tenho um amigo gaúcho, morador do Rio há muitos anos, que agora se queixa do frio. Justifica-se dizendo que “encariocou”. Sorte nossa, porque a sua vinda para cá foi uma grande aquisição para a cidade. Mas ouvir um gaúcho se queixando de frio no Rio de Janeiro é estranho.

Afinal, de que temperaturas estamos falando? Se não for no Alto da Boa Vista à noite, alguma coisa entre dezessete ou dezoito graus à sombra. Li no blog de humor “Sensacionalista” uma manchete tipo “Carioca internado com hipotermia por causa dos vinte e um graus”. Se tivessem escrito quinze graus em lugar de vinte e um, correriam o risco de ser levados a sério.

A sensação térmica é exacerbada pela umidade, mas poucas vezes a temperatura no Rio cai abaixo de dezoito. É quase inacreditável, mas já vi termômetros na praia marcando catorze graus durante o dia. Uma ocasião dessas vira manchete de primeira página e assunto obrigatório de conversa.

Os cariocas estão preparados para o calor, não para o frio. Conheci um que, tendo morado fora, esqueceu-se de como é ter de usar agasalho dentro de casa. Dizia que o único lugar quente de seu apartamento no inverno era embaixo do chuveiro. Improvisou uma solução original para o problema da falta de aquecimento: como a moradia era mínima, só quarto e sala, acendeu o forno e todas as bocas do fogão e deixou a porta da cozinha permanentemente aberta. A conta de gás foi polpuda, mas ele não se arrependeu.

Há tempos, quando as lojas virtuais ainda estavam engatinhando, fiz uma reforma em casa e, aproveitando que o ar condicionado precisava ser trocado, ocorreu-me uma ideia súbita: instalar um aparelho que produzisse não só ar frio, mas também ar quente.

Percorri todas as lojas do Rio: nenhuma trabalhava com esses modelos e os vendedores olhavam para mim como para um extraterrestre. Precisaria importar de São Paulo, onde esse tipo de eletrodoméstico é comum. Vi-me obrigada a desistir porque pressentia que em breve o empreiteiro ia me deixar na mão, como deixou, e não podia me dar ao luxo de aguardar um prazo longo. Na próxima reforma, se houver próxima, vou insistir no assunto, visto que, como qualquer carioca que se preze, temperaturas abaixo de vinte e quatro graus me fazem recorrer aos cobertores.

Este ano, pelos nossos padrões, o inverno foi rigoroso. Relaxem: em pouco tempo estaremos todos reclamando do calor de derreter asfalto. Faz parte.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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