Crônicas

Geraldo Vandré: “A minha esquerda é mais forte que a direita de muita gente”

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ainda é tempo de Vandré. Anseios. Aos 80 anos o “mito” ou quase parece querer recuperar o tempo perdido. Em busca do tempo perdido. O seu. Foi o que demonstrou o filho do Dr. Vandregísilo na sua última chegada à terra natal. Melhor. Muito melhor que aquele senhor perdido, o olhar, esse em especial, naquela sua última entrevista global. Aquele não era o Vandré que nós parahynanos conhecíamos. Era outro. O Geraldo. Apenas. Geraldo Pedrosa de Araujo dias.

Agora, passados dias, mês, lanço um olhar para aquele Gerando Vandré que por aqui chegou em busca do tempo – o seu – perdido. Como voltou? Em que teria mudado? A política. O Impeachment. Lula. Dilma. Vandré é de esquerda ou direita? A resposta é seca: “A minha esquerda é mais forte que a direita de muita gente”. A resposta precisa de uma vaselinazinha. Tá muito seca. A vaselina vem através de um escrito que gosta de citar: “Na mão esquerda eu trago uma certeza e na direita a garantia”.

São frases feitas. Ele gosta delas. Todas pensadas em anos de solidão. Sorri. Pausa. Há muito não se via um sorriso no rosto do “inventor” de o “Pequeno concerto que virou canção”. Vai continuar a carreira – nada a ver com aquela outra, vocês sabem – que um dia parou. Uma parada forçada. Não diz. Lembra sem muito esforço aquele dia. Era 13 de dezembro de 1968. Lembra mais: “Naquele momento aconteceram coisas”.

Fala muito dessas “coisas”. Lembra a peça “Roda viva” do Chico Buarque. O “pessoal” botado – assim mesmo – para correr. Os telefonemas anônimos. As ameaças. Falou muito. Fato raro na vida desse compositor e cantor que sonhava um dia cantar tão bem quanto o Carlos José. Seu ídolo. E chegou quase. Era um bom cantor. Vandré já era Vandré desde o dia em que defendeu num desses festivais que o tornariam conhecido como “compositor de músicas de protesto” – nega o rótulo, não aceita – o “Sonho de um carnaval” de um pouco conhecido compositor chamado Chico Buarque de Holanda. Carlos Dias foi só no comecinho.

Sobre o Quarteto Novo, excelente grupo que o acompanhou por longos anos, lembra que Hermeto Paschoal, esse genial instrumentista e feiticeiro musical, foi preterido pelo então diretor da gravadora Rhodia, Lívio Rangan, porque era feio. Muito feio. E nem possuía ainda aquela imagem – barba e cabelos grandes, desgrenhados, cobrindo-lhe todo o albino rosto – com a qual ficaria conhecido e mais feio ainda.

Nega tudo o que falam sobre sua – dele – vida. Ou quase. Sobre a sua música, nem precisa ser perguntado. Sabe da “pobreza” de suas melodias. Uma base musical muito simples. Uma nota. um acorde. Duas notas. Dois acordes. Talvez querendo tirar essa imagem das cabeças dos muitos fãs que ainda tem por aqui e em alhures, diz que hoje se dedica a música clássica. A música que fazia naqueles anos tinha como objetivo único o de “carregar”, tornar visíveis as letras – seu forte – que criava. Não disse. Insiste na tecla. Busca se aprofundar no universo da música clássica. Compôs “Seis estudos para piano”. Sozinho? Não. Recebeu o auxílio luxuoso de uma amiga pianista. Beatriz Malnic.

Entre as boas coisas que espalhou por aqui, deixou uma bela – mais uma – lição sobre a arte e aquele que dela vive/sobrevive. O ensinamento, dessa vez, veio do saudoso pai, aquele a quem deve o “Vandré” que carrega no nome;“Faça música, mas não dependa dela para sobreviver”. Não há pausa: “Se você depender da arte para sua subsistência, você não fará arte”. Sorri. Em seguida, acrescenta que “nunca dependeu da música para sobreviver”.

E Chico Buarque? Esse depende a arte para subsistir. Não pensa muito para chegar a essa conclusão. Ele não. Tanto que vive dos seus “proventos como funcionário público”. Chico, não. É um “pedreiro” da música popular brasileira. O “pedreiro” aí significando um “trabalhador” que não pode parar de construir – ou ajudar a – para sobreviver. Chico, continuou, para manter o caminho que escolheu não pode parar de cantar profissionalmente.

Nega mais uma vez que fora “torturado” nos anos em que “Pra não dizer que não falei das flores” era considerada por muitos uma composição capaz de “derrubar” um regime. Nunca fora torturado. E sequer perseguindo pela “ditadura militar”. Responde a pergunta da repórter com outra pergunta; “O que é democracia?”. Pausa. Faz tempo que Vandré usa essa tática de responder a uma pergunta com outra pergunta. Sobretudo quando não deseja responder a pergunta que lhe fora feita.

– O que é democracia? Você sabe?

Responde pergunta com duas perguntas, para concluir em seguida:

– Democracia, para ficar num exemplo, é um sistema de governo que não obriga ídolos populares a saírem do país, por pensarem diferente.

Sem dúvida uma bela e nova definição para essa palavra grega que ainda hoje é temida por muitos.

As lembranças vão se distanciando. Caminhando. Vandré também. Hoje, aos 80 anos, nega que desejou “matar” a sua criação. Tem orgulho dela – Vandré. Por fim, despede-se dizendo que parar de compor foi um ato de coragem. Sentia-se meio prostituído – não disse assim – fazendo de sua arte uma “atividade comercial”. Disse. Boa sorte, Vandré. Segue em paz. Caminhando. Sempre. Mas sem nunca esquecer que no entanto é preciso cantar. Mais que nunca.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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