Crônicas

Glenn era Ford mesmo!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Foi assim de repente. Tudo aconteceu quando estava na minha ilha cercada de livros e discos e filmes por todos os lados. Uma ilha. Nada de casa no campo onde possa plantar sementes de esperanças. Ou como todos sabem e cantam “amigos e nada mais”. Estava ali a ver o desabrochar de botões de novas manhãs. Pausa. A ilha é o meu quarto. E o meu quarto é a minha ilha. O meu escritório. Quarto onde me entrego por inteiro.

De repente, nada mais que de repente, contrariando o verso hoje popular, como naquele belo conto de Aldo Lopes de Araújo, uma porteira se abriu e me atirou numa velocidade estonteante para os verdes campos da minha infância. Glenn Ford! Ele, o meu herói e nunca bandido, tinha trocado de roupa e se mudado para outra cidade.

O fio do novelo começava a se arrastar. Fazia curva. Parecia cobra se arrastando pelo chão. Uma cobra apressada. Foi aí que passou pela minha cabeça a lembrança de Totó. Enquanto isso, acompanhando o novelo, brigava com a imagem dessa cobra. Agora Totó era homem. Um cineasta bem sucedido Só imaginação. A cabeça continua no travesseiro e o rosto voltado para o passado. O velho Alfredo. Lembrava. O Paradiso que ficou no passado. Também.

Mas o som daquela bofetada não veio nessa lembrança. Sabia que muitos lembraram as bofetadas daquela mulher que depois dela nunca outra existiu. Lembrei ainda do rosto meu herói do Velho Oeste. O rosto logo depois do tapa. O rosto a balançar de um lado para outro. Nem de Gilda eu me lembrei! Ah, essa é inesquecível! Mas confesso que não me lembrei.

A imagem – sem nenhum esforço – passou pela minha memória. Rápida. Não poderia esquecer aquele baixinho rápido no gatilho e cara de bom-moço. Bom-rapaz invencível no sacar da arma. Aquele mesmo que Paulo de Almeida, o meu bom irmão, sabendo que eu gostava muito dele avisava-me todas as vezes que ele pintava – e coloria! – a tela do meu cinema Jaguaribe!

Lembro-me bem que na porta do cinema Jaguaribe, esse do meu bairro, Santo Antonio ou São José, todos também do mesmo bairro, sonhava em ser tão rápido no gatilho quanto Glenn Ford. O menino magro de calças curtas e sandálias havaianas – o top da moda! – enfrentava filas quilométricas para comprar ingresso para assistir ao seu herói derrubar com um tiro apenas os mais perigosos bandidos do oeste.

Sentava na primeira fila. Lembro-me. Fazia questão. Era um dos primeiros a chegar. Glenn Ford fora um dos primeiros mocinhos do cinema americano que ele conheceu “de perto”. E sonhava, por causa dele, em ser um dia xerife no oeste americano.

A arte como sempre imita a vida. Ou seria o contrário? Glenn Ford que já havia morrido duas vezes, vitimado por enfartes fatais, na primeira como o professor obstinado de “Sementes da Violência” e na segunda como pai adotivo do Super-Homem, aquele que mostraria que nada de super tinha. Lembro-me. Um super-homem que caiu do cavalo e ficou tetraplégico. E agora morria agora de um infarto de verdade. E o meu herói? Ah, esse que nunca caía do cavalo foi derrubado pelo coração. Pausa. Não se levanta mais. O novelo vai assim desfiando pelos caminhos da memória.

Foi no Cine Jaguaribe – sempre gostei dessa forma carinhosa de chamar “cinema” – que assisti ao primeiro filme de Glenn Ford. Um faroeste. Não poderia deixar de ser. Um bang-bang como muitos chamavam naquela época. Lembro-me bem. O filme? “3:10 to Yuma”. Ótimo por sinal. Ali também assisti ao “O Preço de um Resgate”, “Papai Precisa Casar” e outros que a memória agora traidora deixa escapar.

De todas as lembranças, porém, uma lava-me a alma gentil que nunca partiu. Essa em que o meu herói nunca apanhou. Nunca! Nunca foi medroso. Covarde. Nunca ficou apanhado e pedindo a Deus para não apanhar mais. Gilda?! Nem ela! E quem assistiu deve estar lembrado que mesmo que não ficasse tão famosa ele deu também deu a sua bofetada em troco!

Ah, o fio do novelo voltou ao começo. De volta ao começo. Enfim, em casa. Agora sem risco de se perder no caminho. E nada de caverna misteriosa. E nada de Minotauro. O fio começa e termina em mim!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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