Crônicas

Histórias alheias, mas nem tanto

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Quando a gente não consegue inventar uma boa história, conta as dos outros. É melhor do que perder tempo com ideias medíocres.

Aos poucos a vida nos transforma numa espécie de almanaque ambulante. Embora a maioria das histórias, estórias, fatos, ditos, causos que nos divertiu, impressionou ou
emocionou acabe esquecida, sempre sobra alguma coisa.

Esta eu li na revista Seleções há décadas, talvez a minha versão já não seja muito fiel à original.

Era um experiente capitão de navio que trazia sempre consigo uma pequena folha de papel que não deixava ninguém ler. Repetidamente ele tirava do bolso a preciosidade, olhava-a demoradamente e tornava a guardá-la.

Entre os marinheiros a curiosidade era enorme: seria uma carta de amor, um amuleto, uma confissão, uma dívida, um documento comprometedor? O capitão não lhes dava a mínima chance de descobrir do que se tratava porque não se separava do papel nem para dormir.

Um belo dia, vejam só!, o capitão morreu em alto mar. Nem é preciso dizer: antes de qualquer outra providência, a tripulação correu para ler o que estava escrito no cobiçado papel. Dizia simplesmente: “Bombordo – esquerda; Estibordo – direita.”.

Essa história me foi muito útil em sala de aula. Eu a contava na primeira ocasião em que algum “bombordo-estibordo” aparecia no meio do caminho, acrescentando que o mundo da ciência está repleto de pessoas capazes de deduzir fórmulas complicadíssimas e se atrapalhar (ou será apatralhar?) com coisas simples.

Se alguém duvidasse desta última afirmativa bastava indicar a leitura de algumas histórias verdadeiras e bem conhecidas da comunidade acadêmica sobre o brilhante físico e matemático Norbert Wiener.

Entre outras coisas, contam que um dia ele estava andando no campus do MIT quando alguém o parou para conversar. Ao se despedirem, Wiener teria perguntado ao interlocutor de onde ele vinha quando se encontraram. A pessoa, surpresa, indicou- lhe a direção correta e ele exclamou “Que bom, então eu já almocei!”.

Um professor inglês que veio participar de um congresso no Rio respondeu a uma pergunta que lhe fizemos de forma tão elegante que se tornou inesquecível. Queríamos levá-lo para jantar e selecionamos dois restaurantes. Um tinha vista espetacular e comida razoável, o outro não tinha vista alguma, mas a comida era boa. Perguntamos qual dos dois lhe agradaria mais e ele contou uma anedota.

Era aniversário do marido e a esposa comprou para ele duas gravatas. Ela lhe deu o presente quando estavam saindo de casa para comemorar, o marido foi até ao quarto e colocou uma delas. Quando voltou para a sala exibindo a gravata nova, a esposa comentou “Ah, então você não gostou da outra gravata…”

Esse professor planejava voltar ao Brasil algumas vezes e percebeu que qualquer que fosse a sua opção quanto aos restaurantes nos induziria a achar (incorretamente) que para ele a paisagem seria sempre mais importante que a qualidade da refeição ou vice-versa. Defendeu-se com humor inglês. Escolhemos, talvez em causa própria, a melhor comida e o jantar foi ótimo.

Para falar, agora, em coisas mais sérias: lembro-me constantemente das instruções de segurança que as aeromoças recitam antes da decolagem das aeronaves. Se viajamos acompanhados de crianças ou pessoas com alguma dificuldade de movimento as instruções dizem que, em caso de despressurização da cabine, as máscaras de oxigênio devem ser colocadas primeiro em nós e depois nas crianças ou pessoas dependentes.

Não é preciso estar num avião para entender que, se você tem que cuidar de alguém, e, por causa disso, se esquece de cuidar de você, alguma coisa vai dar errado. Se desmaiar pela falta de oxigênio ficará impossibilitado de ajudar a quem quer que seja: deixa de ser a solução para tornar-se um problema a mais.

Esse texto, lido protocolarmente, e ao qual a maioria dos passageiros não presta muita atenção, esconde um ensinamento importante. É uma lição simples, mas difícil de aprender, porque nem sempre conseguimos administrar corretamente nossa energia para ajudar a quem amamos. Na medida do possível, é aconselhável não confundir gestos de burrice com gestos de amor.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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