Crônicas

Hoje

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

Hoje, acordei meio “deprê”. Não sei explicar o porquê. Creio que aquela história de “ano novo, vida nova” não me comoveu desta vez. Aquela esperança de que tudo vai mudar, a alegria de um novo começo e as promessas de acertar onde outrora errei parecem tão vazias, tão sem sentido. Os erros perseguem-me e me levam a cometer novos erros. A vida parece uma sucessão de equívocos. Tudo é mais do mesmo. A mesma merda de sempre. Aquele trabalho que, apesar de pagar em dia, não rende o suficiente e não é nem de longe o que queria ou gostaria de fazer. Os sonhos, pelos quais batalho tanto, nunca se realizam, por motivos os mais diversos e esdrúxulos. A dificuldade em saber lidar com as pessoas que nos cercam: mulher; filhos; pais; irmãos; afins; amigos; colegas de trabalho; e, até mesmo, desconhecidos com os quais temos algum contato em algum supermercado, banco ou padaria.

É tão fácil dar conselhos, dizer às pessoas onde erraram e o que devem fazer para melhorar. Olhar de fora e dizer: “eu faria isso” ou “escute o que estou dizendo”; como se fosse especialista em tudo. Por que, então, é tão difícil seguir os próprios conselhos e acertar o caminho ou mesmo decidir qual é o melhor? Por que sempre parece que escolhi a estrada errada e que nada do que faço é certo? Por que esta insatisfação perene, este sentimento de desperdício de tantos anos? É tudo tão frustrante e angustiante. Uma sensação de impotência diante das vicissitudes.

Hoje, mais uma vez, estou vendo as horas passarem, como ontem, apenas esperando mais um dia acabar igual a todos os outros: desperdiçado. Os amigos dizem para ter fé, seguir tentando, que sou inteligente e vou conseguir atingir meus objetivos. Entretanto, sinto-me como o Brasil: o país do futuro; o futuro que nunca chega. A diferença é que o Brasil tem mais de quinhentos anos e terá muitos mais. Eu não. Se a média de vida em meu país é de setenta e dois anos, estou em contagem regressiva, já na descendente da ladeira da vida. O único futuro certo é o fim do caminho.

Hoje, uma querida amiga disse-me que não é de um dia para o outro que as coisas se resolvem, que devo fazer as coisas tomarem um novo rumo, que devo dizer para mim mesmo que não estou feliz e que a vida é uma só e que não preciso submeter-me a certas coisas se não preciso delas. A grande questão é que não sei o que fazer para mudar a direção, que eu já sei que não estou feliz e que a vida é única e que apenas me submeto a certas coisas porque é necessário. Seria fácil se isso, se aquilo ou se assim fosse. Tudo, todavia, não passa de “se”. Conjecturas sem fim plenas de incertezas.

Hoje, acordei com vontade de fugir. Vontade de ir para outro lugar, outra cidade, outro estado ou mesmo outro país. Começar tudo de novo, longe de tudo e de todos. Longe dessa vida desmedida, depreciada, de pessoas hipócritas, mexeriqueiras, mal-amadas e malcomidas. Percebi, então, que era um sentimento covarde e mesquinho. Que fariam aqueles que gostam de mim? Pior, que fariam os que dependem de mim? Meus meniños, tão novinhos ainda. Inocentes e incapazes de entender o que mesmo eu não entendo. Desisti de fugir, mas não encontrei alento. Nada que me dê ânimo. É viver por viver, sem esperança, sem fé e sem lenitivo; assim, depressivo.

*Texto publicado inicialmente em 2008.

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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