Crônicas

Inocência

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

O marido desconfiava da fidelidade da mulher e resolveu segui-la. Viu quando ela entrou num restaurante e se sentou à mesa com outro homem. Viu quando eles saíram juntos do local e entraram num hotel próximo. Ficou na calçada aguardando e viu quando eles se assomaram à janela. Viu quando o homem fechou a cortina e exclamou:

– Que pena! Logo agora que eu ia conseguir um flagrante!

A piada, velha, não é das melhores, mas não tem saído da minha cabeça nos últimos dias. Isso porque ainda conheço gente que defende, de boa fé, o nosso ex-presidente e toda a camarilha que o cerca.

Só inocentes continuam acreditando nessa conversa de que pobres tem todos os direitos e os ricos são algozes. Esse discurso desonesto, vindo de quem leva vida de nababo, tem feito tanto mal ao Brasil quanto a incompetência do governo.

Se a comida é pouca, reparti-la tirando de uns para dar aos outros só resolve na emergência. Temos que plantar e colher, trabalhando para produzir comida suficiente para todos. Simples assim.

Meus amigos costumam presentear-me no aniversário e em outras ocasiões especiais, mas nunca puseram sítios à minha disposição. Talvez eles não sejam suficientemente abonados, porque eu só ganho coisas prosaicas: uma roupa, um livro, um par de sapatos. Como é de praxe, nas épocas devidas, eu retribuo esses presentes com itens semelhantes. Não saberia como retribuir a boa vontade de alguém que comprasse um apartamento com a única finalidade de me emprestar o imóvel.

Lembrei-me de outra piada, ainda pior e mais antiga que anterior, sobre a mulher que de vez em quando voltava para casa com uma joia cara. Não me lembro do final, mas ela jurava para o marido que encontrava tudo na rua por acaso. Sortuda!

Imagino que os muito ricos deem presentes de valor elevado e que, entre eles, esse negócio de retribuição seja regido por outros parâmetros. Só não entendo como alguém que se declara pobre consegue colecionar tantos amigos ricos e desinteressados e eu tenho que me contentar com a roupa, o livro ou os sapatos. Deve ser porque não preencho algum pré-requisito, tipo ser populista e bom de discurso. Honestidade não precisa, só atrapalha.

No entanto eu me qualifico completamente para ter uma conta recheada em algum paraíso fiscal porque, até onde consegui deduzir, o único pré-requisito para isso é não saber de nada. Olhaí, gente, eu não sei de nada. Cadê a minha conta?

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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