Crônicas

Jantando em japonês

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Quando começou a moda da comida japonesa ela leu numa revista uma frase de efeito que resolveu adotar. Passou a usá-la sem citar a fonte, e também sem desmentir que não fosse dela. Dizia o autor da tal frase que jamais entraria num restaurante onde os guardanapos são cozidos e a comida é crua.

A citação fazia tanto sucesso, e ela a repetia tantas vezes, que acabou sendo marcada como uma pessoa que odiava comida japonesa. Mas não era verdade: ela morria de curiosidade de provar peixe cru! Embora fosse viúva, companhia não lhe faltava, mas preferia manter a pose e não dava o braço a torcer. Pensou em ir sozinha, mas desistiu: não sabia lidar com aquele tipo de comida, e pagar mico estava fora de questão.

Quando um casal de amigos paulistas veio ao Rio, e pediu-lhe que indicasse um bom japonês, viu ali a chance de matar dois coelhos com uma só cajadada. Ao invés de convidá-los para jantar em sua casa, como tinha planejado, convidou-os para irem a um japonês. O plano era perfeito: eles não conheciam a sua famosa piada do guardanapo cozido e a ajudariam com as explicações necessárias.

A aventura começou quando chegaram ao restaurante. Ela escolhera um local muito bem conceituado, coberto de elogios pelos frequentadores, segundo lera em diversos comentários de revistas e jornais. Sobressaltou-se, porque só então lhe ocorreu que, em lugar assim badalado, o risco de encontrar algum conhecido era grande. Respirou aliviada ao constatar que não havia ninguém que pudesse denunciá-la, mas foi cautelosa: sentou-se numa mesa discreta e permaneceu toda a noite em estado de alerta.

Quando abriu o cardápio, não entendeu uma palavra. Para isso, felizmente, contava com a ajuda dos amigos, que lhe explicaram, em linhas gerais, do que tratava cada item. Compreendeu pouco do que falaram, mas não quis cansá-los além do necessário, e escolheu mais ou menos ao acaso. Recusou a sugestão de comer macarrão de arroz: massa ela podia comer em qualquer esquina!

Foi quando lhe contaram que tinha pedido apenas uma dupla de sushi, não um prato duplo, mas duas pequenas peças que se devoravam em dois segundos, e que, para completar a refeição, precisaria pedir várias daquelas coisas. Aí percebeu que os preços, que a princípio lhe pareceram módicos, na verdade eram astronômicos, porque a somatória era de espantar qualquer um. Ficou nervosa, mas acalmou-se e não deixou transparecer. Afinal, de vez em quando, uma extravagância não faz mal a ninguém.

Veio a comida, era linda! Não sabia comer com pauzinhos, pediu um talher. O garçom informou que não havia. Ela implorou. Ele acabou trazendo um garfo e uma faca da cozinha, desculpando-se pela péssima qualidade, esclarecendo que não eram destinados para o uso dos clientes.

Os amigos mostraram-lhe como cada um daqueles pequenos bocados deveria ser mergulhado no molho de soja, que despejaram num pequeno pires à sua frente. Ela obedeceu, mas ao retirá-lo, o arroz desmanchou-se e metade do sushi caiu de volta dentro do pires, espirrando molho para todo o lado e salpicando de preto a sua imaculada blusa branca. Acudiram-na imediatamente com um pouco de nabo ralado, dizendo que servia para tirar as manchas. Deu certo, mas a roupa ficou cheia de farofa de nabo. Paciência.

Apanhou o segundo sushi. Com esse não deixaria que acontecesse o mesmo. Mergulhou-o no molho, mas, antes de pegá-lo de volta, cortou-o ao meio com a faca. O arroz desmanchou-se todo, ficou imprestável, impregnado de soja, foi obrigada a jogá-lo fora. Comer pura a fatia de peixe cru que restou era demais para uma principiante. Jogou-a fora também, e calculou mentalmente o prejuízo. Pelo menos aprendera que sushi não foi feito para ser cortado ao meio. Trocaram-lhe o pires e ela recomeçou a batalha.

Enquanto isso, seus convidados se deliciavam. Aconselharam-na a comer um pouco de gengibre. Ela declinou, odiava gengibre, que, em sua opinião, só servia como remédio para dor de garganta.

Havia também uma pasta verde que, disseram-lhe, colocada dentro do molho de soja realçaria o sabor. Resolveu experimentar. A raiz forte provocou-lhe um acesso de tosse, por pouco não cuspiu na mesa. Trouxeram-lhe correndo um copo d´água e trocaram-lhe de novo o pires.

O sabor do peixe cru não era de todo desagradável, mas ela estava estressada demais para aproveitar. Terminou a refeição aos trancos e barrancos e perguntou pela sobremesa.

Apresentaram-lhe uma linda bandeja com docinhos multicoloridos e ela quis saber de que era feito cada um deles. A resposta era sempre a mesma: de feijão. Feijão!? Havia várias sugestões fora da culinária japonesa, mas ela achou mais seguro pedir um café.

Apesar de tudo, o jantar foi agradável, principalmente pela boa companhia. No entanto, ela concluiu que não valia a pena tanta despesa para terminar no doce de feijão. Não tornaria a por os pés num restaurante japonês.

Voltou à piada do guardanapo cozido, agora com alguma convicção. Na primeira oportunidade quase acrescentou “e que, ainda por cima, nos leva à bancarrota”. Conteve-se a tempo. Todo o cuidado é pouco: a mentira tem pernas curtas. As meias verdades também.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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