Crônicas

Jogando fofoca fora

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Somos um pontinho num universo que mal começamos a explorar, mas o vizinho da porta ao lado é quase sempre mais importante para nós do que todo o planeta Marte.

Pior: nossas emoções, diante de fatos similares, são seletivas. A morte de um desconhecido representa pouco ou nada se comparada com a morte de uma pessoa da qual conhecemos a trajetória de vida. Arrisco dizer que isso é uma defesa diante da miséria humana: só permitimos que nos afetem acontecimentos com quem estamos envolvidos de alguma forma, quer seja pessoalmente, quer seja por se tratar de uma figura pública.

A fofoca ilustra bem essa seleção natural. Se alguém contar a um grupo de amigos que José traiu Maria com João, e ninguém souber quem são José, Maria ou João, vão olhar com espanto para o portador da novidade. Que interesse tem isso? Mas se José for um colega conhecido, a coisa muda de figura. Todo mundo vai perguntar os detalhes, e em pouco tempo a notícia se espalha. Se for o caso, no dia seguinte vira capa de “Caras”. Aliás, a simples existência de revistas desse tipo basta para comprovar o fascínio que o diz-que-diz exerce sobre nós.

A verdade é que de fofoca todo mundo gosta. Muitos podem não passar adiante, mas duvido que exista quem não goste de ouvir uma boa fofoca.

E quem disse que homem não participa de fofoca? Quase nenhum admite, até deprecia, declara que é coisa do universo feminino, mas na prática adora. Claro que a maioria tem o cuidado de encobrir os fuxicos com um manto de assunto sério. Em política, por exemplo, quase tudo é fofocagem, ou vice-versa, não sei bem. Os políticos passam a maior parte do tempo em volta do próprio umbigo e há sempre uma discussão importantíssima sobre quem vai ser o vice-secretário de alguma subcomissão. E isso não ocorre só nos altos escalões, é praxe na maior parte dos ambientes de trabalho também. Idem em qualquer tipo de grupo.

As redes sociais, instrumento de comunicação inventado na era digital, se comportam como as comadres da fofoca, inclusive no famoso “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Sem falar na divulgação de boatos sem fundamento ou mentiras propositadamente inventadas.

A diferença é que as comadres tinham (e ainda tem) um papel social mais visível: seus mexericos acabam por inibir alguns comportamentos socialmente indesejáveis, coisa muito mais difícil de acontecer quando os autores dos comentários se escondem atrás de máquinas. Até a sabedoria popular reconhece o poder das comadres: há à venda um adesivo para carros que diz “Rastreado por fofoqueiros”. Bingo!

As biografias são outro terreno fértil para a fofocagem. Uma biografia romanceada vende muito mais que uma biografia que apenas se atenha à documentação. Claro que a perspectiva histórica e a importância do biografado são importantes, mas uma fofoca aqui ou ali ajuda bastante. Muitas vezes os autores estampam o aviso de que a história é “baseada em”, porém na prática eles ajudam a denegrir ou a criar uma falsa boa imagem de alguém. Tenho um sentimento de revolta alheia quando vejo um filme como “Amadeus” que exalta Mozart e traça um perfil negativo de Salieri que é provavelmente falso. Mas o filme é excelente e a intriga inventada acaba se alastrando como verdade porque é difícil divulgar com a mesma eficiência a versão de um cara que viveu há duzentos anos. Ponto para a fofoca.

Não adianta almejar ser sublime, nem disfarçar com argumentos sofisticados: melhor admitir de uma vez que a fofoca é uma das forças que movem o mundo.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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