Crônicas

Lá vem o treeemm!

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

20km/h; máximo 40km/h na volta, 30km/h na ida. A mata fecha. Abre. Surgem ruínas e trechos de rios. Escurece. Túneis com uma água que escorre através das pedras enegrecidas pela ausência da luz: “isso não é água, a senhora está me ouvindo? Isso não é água”. A cena de “A Aurora da Minha Vida” aqui se contextualiza sob medida. Não é água, diria o Bobo; é xixi de morcego, nos informa a guia do Trem, que sai diariamente de Curitiba para Morretes (os 68km mais distantes do país, vencidos em cerca de 4h). “Se sentirem algo geladinho entre as pernas, é cobra”, finaliza a voz da mesma na escuridão do vagão. Claridade. Dá vontade de pegar um galho dessas hortências que passam pela janela em movimento. Escuta-se o cantar dos pássaros… Trancos do trem. Risadas de criança e dos demais passageiros que tem seus corpos bruscamente movimentados para frente e para trás. É 1º de janeiro de 2016, às 8:20h, e os 21 vagões estão cheios. O turista estrangeiro só acompanha as informações por letras resumidas em um papel já amassado, é proibido passar informações em inglês, a não ser que um dos passageiros, dotado da simpatia de quem joga conversa fora e arranha o inglês, comece uma bela prosa, algo fora dos padrões de um paranaense. Os patriotas levantam-se, dançando a dança do selfie para a esquerda e para a direita ao sabor das palavras que saem pelo microfone. “Chaminé remanescente da Casa de Bombas alagada pela represa”, “Rio Ipiranga, que significa de cor escura, avermelhada”, “veriamos montanhas se não fosse essa névoa”, “Ponte São João, sem parafusos”, “Santuário Nossa Senhora do Cadeado”… O estrangeiro tem o mesmo brilho nos olhos daqueles que estão entendendo a guia. A natureza tem disso: encanta, mesmo que não consigamos compreendê-la.

Enquanto você está em casa, lendo essa crônica, a natureza respira. Intocada, descansa. Vive aqui uma parcela considerável do que nos restou da Mata Atlântica, fazendo de nós um planeta mais limpo. O som da locomotiva se mistura às canções de ambiência do vagão e aos flashes dos dispositivos eletrônicos. Um trem viaja no primeiro dia do ano sobre trilhos construídos entre 1880 e 1885, sem a mão de obra escrava – fato bastante curioso, visto que a Abolição da Escravatura deu-se apenas 4 anos após a finalização dos trabalhos.

As poltronas acolchoadas com braços de madeira contam histórias de chegadas e partidas, de pessoas de hábitos e costumes muitas vezes contraditórios. De épocas. De deslumbramentos e cochilos; afinal, o balançar do trem é um ninar mais do que perfeito até para adultos.

Morretes é o destino final do curioso que se aventura nessa jornada em 01 de janeiro de 2016. A estação é muito menor do que a de Curitiba, por isso a composição tem de fazer duas paradas para liberar os passageiros. Aqui, há mais de 900 metros de diferença de altitude da rodoferroviária de Curitiba, o clima é extremamente abafado. Está nublado. A cidade, que já teve como alcunha oficial Nossa Senhora do Menino Deus dos Três Morretes, é especialista em toda sorte de alimentos feitos com banana: banana fruta, banana à milanesa, banana split, sorvete de banana, bala de banana, banana chips salgada e doce, cachaça de banana… e o Barreado, prato típico da região resgatado dos autos da história do local para o turista e o morador; trata-se de uma carne desfiada cozida por muitas e muitas horas com temperos diversos, servida com arroz e banana. Uma dica de inexperiente para quem também nunca provou tal iguaria: peça a quem lhe serve uma demonstração de como se monta o prato. O ponto exato da mistura é aquele no qual se ergue o prato de cabeça para baixo sob a cabeça de alguém e,como num passe de mágica, a comida não cai.

Às 15h, já se ouve o apito do trem de volta a Curitiba. O Barreado causa uma certa leseira e quem viaja sente-se abraçado por Morfeu. Voltemos à cidade cujas nuvens fazem os pisos em pedra portuguesa brilharem constantemente, tal qual um pisca-pisca natalino. O humor de São Pedro aqui é inconstante e sofre o turista que não sai preparado para o sol e o mormaço dessa capital cuja arquitetura geral não me agrada, porém torna-se aos olhos da arquiteta que vos escreve referência de urbanismo. Chegando à Estação, no centro da cidade, carros. Nem muitos, nem poucos. Um ou dois pedestres. No máximo. As nuvens como sempre acinzentadas, sempre à espreita. E ao som do apito, lá vai o trem.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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