Crônicas

Lágrimas e 27 luzes de velas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Do ponto de vista em que me encontro, de cócoras frente ao Mar, tudo são lágrimas e luz. Lágrimas que descem do A Noite sob a forma de espessas gotas a desvendar a irregularidade do piso em pedras portuguesas, gotas que se tornam poças e novamente gotas ao esparramarem-se pelas pernas apressadas do vai e vem do fim de uma festa. O copo jogado no asfalto reforça a imagem de fim de linha, a chuva que chove sem parar colore de outros tons a sinfonia de bis no show na nova Praça Mauá.

De baixo para cima, tudo é grandioso. Procuro a Lua em meio ao clarear irregular do céu sombrio e a vejo cheia e fascinante entre um piscar de olhos, por trás de toda a chuva. Penso no dia que termina, no ano que para mim se encerra. Respiro.

Está escuro e as bocas que abrem e fecham são perceptíveis através de um bruxulear em tons dourados; são muitas vozes que se unem a uma única canção. Uma pequena eu se esconde entre suas pernas e lágrimas debaixo da mesa. Tinha pavor do “com quem será” em meus aniversários, mas sempre gostei das velas, de tê-las acesas e de apagá-las, sobre um bolo bonito, feito só para mim. Era uma ligação forte entre mim e meu pedido de ano novo, era o poder de cessar o encanto daquelas dançarinas flamejantes sob meus olhos com um único sopro.

Congelo a imagem da fumaça pós velas acesas, o instante antes do cortar do bolo e dos sorrisos, esperando doces. A luz que se apaga promete proteger meu novo eu contra as energias negativas, por todo o ano que está nascendo naquele instante. A fumaça, que se iniciou no sopro, leva meu desejo longe, tão longe…

Andei pesquisando e provavelmente o costume de comemorar o aniversário com um bolo redondo e repleto de velas vem da Grécia Antiga, dos nossos antepassados democratas, da sociedade primeira, das mulheres com vestimentas de deusas, de homens com corpos perfeitos, de uma dieta saudável. Segundo a mitologia, reverenciava-se a deusa da caça, Artemis, representada pela Lua, com um bolo redondo e iluminado, tal qual o satélite natural da Terra. Na Alemanha campestre do século XIII, através da kinderfeste (festa de criança), velas eram acesas ao raiar do dia e o aniversariante acordava com a chegada do bolo. Havia sempre uma vela a mais do que a idade da criança sobre o bolo, significando a luz da vida. Todas eram acesas para serem apagadas pela estrela do dia.

Agora que já passa da meia noite, e ainda chove, tudo são lágrimas e velas. Lágrimas como a água da vida e velas como a luz da mesma vida que recomeça neste domingo.

Mais tarde hei de apagar duas velas representando 27 anos, nem uma a mais, nem uma a menos, sobre um bolo redondo, todo feito para mim.

Ainda de cócoras abraçando minhas pernas, lágrimas de chuva escorrem pela minha face. Já não tenho medo do com quem será.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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