Crônicas

Leis da atração

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal
por Marcio Paschoal*

Certas coisas combinam melhor que outras. Algumas são opositoras e, mesmo assim, se completam quase à perfeição. As leis da atração seguem regras estranhas.

Nunca me acostumei bem com a ideia de que, nas relações amorosas, por exemplo, os polos diferentes se atraiam. Só se for para a porrada. Imagino um marido burro, pobre e machista com sua companheira culta, delicada e rica. Só se forem nos primeiros quinze minutos do sexo. E olhe lá. Além disso, é contrassenso ou puro masoquismo.

Outros exemplos, no entanto, caem como uma luva. Por falar nelas, as mãos, quer coisa que as atraia mais que uma bunda? Para nossa gente, preferência quase unânime, nada escapa a um bom rebolado. Às vezes, por puro reflexo, quase automático, já sem a maldade prevista, simples como um saudar sincero, um genuflexo.

Já as mulheres têm por atração as vitrines; ou sapatos, jóias, vestidos, o que dará no mesmo. Algumas, com mais personalidade, até me confessaram o magnetismo exercido pelas barriguilhas. Mas nada se compara à patologia de discutir relações durante jogos de futebol na tevê.

Há coisas que combinam de verdade, tipo “não podermos ver uma sem a outra”. E não falo só dos clássicos, como queijo e goiabada, feijão com arroz, uísque e castanha de caju, e Eduardo e Mônica, mas dos casos dos surdos e o funk; moedas em carteira de pobre; pescarias e chifres. Este último, explico melhor: o cara diz que vai pescar, cai na farra, e a mulher aproveita a folga. Traição em via dupla, quase um acordo velado. Como bem dizem os andaluzes: “pescador de caña, cabrón seguro!”.

Mas há também aquilo que se atrai naturalmente, sem que possamos fazer nada para impedir.

Uma espécie de atração fatal e inevitável: são dedos e quinas; bêbados no volante e postes; pitbulls e canelas; xixi e tampo de vaso; leite fervendo e fogão limpinho. Não adianta lutar contra.  Quer mais? Camisa branca e molho de tomate; rádio AM e dupla sertaneja; pedal de bicicleta e tornozelo…

E como reagir nos casos de o elevador sempre no último andar na hora da sua dor de barriga? E carro trancado com a chave dentro, bem na hora da chuva?

Embora nada se compare ao fator imponderável e com quase cem por cento de probabilidade: encher a cara, sair na noite e, no final, acordar com um dragão do tamanho da sua ressaca. Bebedeira e mulher feia. É infalível.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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