Crônicas

Lembranças

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

O menino olhava para o pai com devoção e tristeza no olhar. Seu herói estava sentado no meio-fio ao seu lado, cabisbaixo, todo sujo da tinta que o urubu de espuma preso no boné soltava, com um semblante indescritível para ele, mas que emanava uma decepção perene. Seu pai exalava angústia, oriunda de uma mistura de raiva e frustração. Tudo o que o garoto sentia era um profundo amor e a certeza do caminho a seguir.

Corria o ano de 1995 e ele havia completado dez anos. Seu pai prometera levá-lo ao Maracanã pela primeira vez para ver o seu clube de coração jogar. Entretanto, o garoto não nutria o mesmo sentimento que seu genitor. Não que torcesse por outro, apenas não era tão ligado a futebol assim. Era Flamengo por simpatia, para alegrar o pai. Não tinha certeza se o presente era para ele mesmo, mas ficava feliz por curtir momentos assim com o coroa.

fla-x-flu

Não era qualquer jogo: era um Fla-Flu! O clássico mais elegante e contagiante de todo o globo. Mais: era final de campeonato estadual no ano do centenário de criação do Maior do Mundo. Não era bem uma final, mas o último jogo do octogonal decisivo e os dois clubes eram, coincidentemente, os únicos com chances de levarem o título. Seu pai estava empolgado e com razão: o Mais Querido precisava de apenas um empate para se sagrar campeão e contava com o ataque dos sonhos – Sávio, Romário e Edmundo.

Saíram de casa vestidos com o Manto Sagrado, bandeira na mão e sorrisos no rosto. Felizes por estarem juntos. O pai orgulhoso por levar o seu rebento para torcer com ele e por compartilhar sua paixão. A certeza era de um dia inesquecível, um dia de emoção, glória e alegria.

Deixaram o carro em frente ao prédio de um amigo nas imediações da Praça Vanhargem. Caminhariam de lá. Seu pai tinha dois grupos de amigos: um de rubro-negros e outro de tricoletes, como chamava. Foram andando em direção ao Maraca e combinaram de se encontrar no mesmo prédio na volta para comemorar na Universidade do Chopp.

Em frente ao estádio, um homem vendia um boné com um urubu de espuma em cima. Seu pai queria comprar dois, mas (Graças a Deus!) era grande. O coroa colocou o apetrecho e entraram no estádio. Quando adentraram a área das arquibancadas, a visão era grandiosa. Algo que não dá para imaginar assistindo pela televisão. A energia no ar era quase palpável e eletrizava.

O anel principal estava dividido ao meio por uma corda azul controlada pela polícia. Aos poucos, a corda foi caminhando para o lado, pois os representantes da Nação Rubro Negra não paravam de chegar. Não demorou muito e dois terços do anel estavam de vermelho e preto. Os tricoletes ficaram reduzidos em espaço, mas não estavam tão apertados como a imensa massa rubro-negra. Eram mais de cento e vinte mil pessoas fazendo uma enorme festa, mesmo debaixo da chuva que caía.

O jogo começou e a alegria não durou muito. A sorte parecia sorrir para o florminense. Abriram o placar aos trinta minutos e fizeram o segundo aos quarenta e dois. A imensa Nação estava calada durante o intervalo. Os tricoletes cantavam e faziam uma enorme festa. Amigos chamavam seu pai para ir embora, mas ele não saía do lugar e todos ficaram. A tinta pingava do urubu por causa da chuva e o sujava todo. Ele não ligava, estava confiante de um segundo tempo melhor.

O jogo recomeçou, o tempo passava e a apreensão aumentava. Eis que, aos vinte e seis minutos, Romário marcou para o Flamengo. Na hora de buscar a bola na rede, Sorlei, do Flu, e Marquinhos, do Fla, desentenderam-se e foram expulsos. A galera acordou e começou a incentivar o time. Aos trinta e dois minutos, Fabinho empatou a partida. O desespero mudou de lado. Os tricoletes encolheram-se e se calaram. Para piorar a situação deles, Lira foi expulso por causa de uma tesoura. A Nação já comemorava e os torcedores do florminense começaram a ir embora.

O que parecia impossível, porém, aconteceu. Aos quarenta e dois minutos da segunda etapa, um gol de barriga desmoronou o sonho de milhares de cidadãos rubro-negros. Um momento, um lance, que mudou tudo na história daquele dia. Ainda assim, o que o menino não deixou de perceber foi que a torcida campeã era minúscula, já que poucos ficaram para ver o famigerado gol. Não tinha comparação com a imensa Nação que não arredava pé. Naquele momento, o que era simpatia e agrado ao pai, virou amor.

Ao saírem, caminharam em direção à Praça Vanhargem para encontrar os amigos. Lá chegando, sentaram-se no meio-fio para esperar. Ele apenas observava o pai. Tudo o que o garoto sentia era um profundo amor e a certeza do caminho a seguir. Um profundo amor pelo pai, pelo Flamengo e pela Nação. Levantou-se e deu um abraço apertado no pai, arrancando-lhe um sorriso. Os amigos chegaram cantando vitória e trepidando, mas nada abalava a felicidade dos dois. Foi realmente um dia inesquecível.

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Hoje, o menino é um homem, pai também. Ele lembrou toda essa passagem de sua vida enquanto vestia o Manto Sagrado no corpo de seu herói e o cobria com uma bandeira. Decidiu que não choraria de tristeza pela perda, mas, como naquele dia de 1995, celebraria a união, a energia, a vida e o amor. Tinha certeza que ainda teria muitas alegrias e vitórias em sua passagem terrena, como o Flamengo teve e terá depois daquela derrota. Tudo o que ele mais queria era conseguir ensinar seu filho a amar como o pai dele o ensinou: com dedicação e desprendimento. Tudo se resume a Raça, Amor, Paixão e Magia!

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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