Crônicas

Líbano

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Gosto de conhecer os vestígios de antigas civilizações e recentemente tive a sorte de visitar o sítio arqueológico de Baalbeck no Líbano. Naquele local os romanos planejavam construir o maior conjunto de templos do seu império, e ergueram três, dedicados a Júpiter, Baco e Vênus. Os templos e o seu entorno formam um complexo arquitetônico notável.

A maior parte das ruínas é romana, mas, antes e depois deles, por ali passaram outros povos que deixaram marcas em Baalbeck. A cidade fica no Vale do Bekaa, onde atualmente o Líbano produz bons vinhos, e a cerca de trinta quilômetros da fronteira Síria. No momento o Líbano vive em paz, mas não muito longe dali o Estado Islâmico tem destruído monumentos importantes. Tomara que nunca consigam atingir Baalbeck.

Infelizmente, destruir monumentos não é privilégio deles. Há ocasiões em que as pessoas o fazem porque precisam sobreviver, e isso é mais importante do que qualquer patrimônio, mas há outras em que a destruição é um ato de pura selvageria.

No Egito alguns templos serviram de abrigo durante guerras, e lá dentro acenderam fogueiras que danificaram enormemente as pinturas decorativas; incrível que ainda tenha sobrado alguma coisa. Em Pequim, nós, ocidentais que gostamos de nos considerar civilizados, destruímos em 1860 o espetacular Palácio de Verão, para ‘dar uma lição’ aos chineses. Em Byblos, também no Líbano, considerada por alguns a mais antiga cidade do mundo, e muito importante na época dos fenícios, os cruzados destruíram colunas romanas de mármore para usá-las como pedras na construção de fortalezas. Há menos de cem anos, nas duas guerras mundiais, houve enorme destruição nas mais importantes cidades europeias. O mundo é sempre muito parecido consigo mesmo.

Conheço pouco o Oriente Médio, o que lamento, porque estão lá algumas das raízes mais fortes da nossa cultura e percorrê-lo é uma aula de História ao vivo. As complicações milenares da região não são segredo para ninguém e dificultam o turismo.

No Líbano, depois de quinze anos de guerra civil, o poder foi dividido entre os grupos religiosos: o presidente tem que ser cristão maronita, o primeiro ministro muçulmano sunita e o porta voz do parlamento muçulmano xiita.

O povo libanês é extremamente hospitaleiro, não existe violência pessoal. Nesse sentido pode-se andar sem medo. Porém, tanto nos centros urbanos quanto nas estradas, há barreiras montadas pelo exército, onde se inspecionam pessoas e veículos.

Beirute é uma cidade difícil para pedestres. Em vários locais, as calçadas são vigiadas por soldados e interditadas por arames farpados e peças de concreto, obrigando as pessoas a andar pelo meio das ruas. É uma medida preventiva contra ataques a prédios visados, como edifícios públicos e algumas embaixadas. A população não se importa com isso: é tão comum os pedestres dividirem a pista com os carros que, se os motoristas encontrarem uma rua desimpedida, é provável que pensem que está acontecendo algo anormal. Ao voltar de Beirute, fiz escala em Frankfurt e, por descuido, atravessei uma rua fora da faixa de pedestres. Senti mais medo de ser atropelada lá do que no Líbano: claramente os motoristas alemães não estavam preparados para enfrentar esse tipo de imprevisto.

Por todo o Líbano o trânsito é caótico e praticamente não existem semáforos. Quem for empreendedor pode tentar vender sinais luminosos aos libaneses, eles precisam muito.

Toda essa bagunça é compensada pela cordialidade do povo. Ouvi um libanês dizer que eles só têm três defeitos: os minutos duram horas, o tráfego é ruim e fumam. Não sei sobre o primeiro, mas dos outros dois sou testemunha. No caso do fumo, destacam-se os restaurantes onde se oferece o narguilé, um hábito arraigado entre homens e mulheres de todas as idades. Não vi ninguém de burca, mas cabeças cobertas são comuns, assim como roupas decotadas.

O nosso primeiro contato com os libaneses foi cômico, ou trágico, não sei bem. O voo chegava a Beirute às três horas da manhã e, para prevenir problemas, tratei pela internet, com um agente de viagens local, o traslado do aeroporto. Deveria estar à nossa espera uma daquelas pessoas com um cartaz com o meu nome, mas não estava. E agora?

Depois de zanzar um pouco, na esperança de que o motorista contratado aparecesse, e vendo o aeroporto tornar-se perigosamente vazio com o adiantado da hora, o jeito foi procurar outro transporte. Já sabia que os taxis não têm taxímetro, é preciso negociar o preço antes, e preparei-me para a batalha.

Não foi tão difícil quanto previa, mas o homem que nos atendeu no aeroporto, deu o endereço, e algumas explicações, a um taxista que não falava uma palavra de inglês. Depois de rodar um bocado, ficou evidente que ele não sabia chegar ao local onde iríamos nos hospedar. Endereços em Beirute são vagos, ele parou umas duas ou três vezes para pedir informações, mas era de madrugada, e as pessoas que ele abordou também não conseguiram ajudá-lo.

Como tínhamos um telefone de contato, fizemos a ligação (com o nosso celular brasileiro – o custo nem digo qual foi – afinal tratava-se de uma emergência) e as duas partes se entenderam em árabe. Infelizmente, o taxista não era dos mais espertos e o que deveria ter sido um único telefonema virou uns três ou quatro, cada vez mais longos, enquanto andávamos em círculos.

Num carro desconhecido, com a cidade deserta, aquele city tour improvisado nos deixou assustados, contudo acabamos chegando ao lugar certo. Na hora de pagar a corrida, o taxista reclamou do tempo que gastou, ou da gasolina extra, ou de coisa parecida: quando se trata de dinheiro, árabe ou qualquer língua acaba tendo o mesmo efeito prático. Cansados da aventura, e sem nenhuma vontade de gratificar a incompetência, pagamos pouco mais que o valor ajustado.

Os libaneses têm um carinho especial pelos brasileiros, porque no Brasil vivem muitos descendentes de libaneses. Generosos, ao final de nossa estadia, ofereceram-nos uma enorme caixa de doces, o que acrescentou um razoável peso à minha já pesada mala. Ficou parruda, a pobrezinha. Em Frankfurt, enquanto a aguardávamos na esteira do aeroporto, surgiu um saco de viagem de formato estranho que entupiu a saída das bagagens, e represou tudo que vinha depois dele. As pessoas, preocupadas, começaram a movimentar-se para parar a esteira e desfazer a montanha de volumes acumulados e retorcidos. Aí apareceu a minha poderosa mala, que deu um piparote naquilo tudo e desentupiu o caminho. Foi aplaudida com entusiasmo!

Como nunca soube de aplausos para uma mala, fiquei orgulhosa, e sem pensar exclamei ‘É minha!’. Todos me olharam agradecidos e uma turista replicou ‘Good for you’. Podia ter acontecido em qualquer lugar, mas associei o episódio ao Líbano. Virou mais uma boa recordação do país.

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Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

Cronista Carioca.

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