Crônicas

Língua por cima, língua por baixo

Adalberto dos Santos

Às vezes não dá para competir com as palavras; às vezes elas enganam, enganam mesmo. Quem inventou a linguagem deveria estar seguro de que as palavras dariam um enorme trabalho aos homens. Tem dias que não dá, a língua por cima, coitado de quem inventa. Fico vendo a primeira pessoa a falar, como ela deve ter ficado surpresa com a possibilidade de a gente, pela palavra, ser entendida. E imagino o que não sentiu a primeira para quem a palavra falhou na hora em que mais precisava. Mas é isso, faz parte do jogo, tem horas em que ninguém consegue dizer; coisas da língua, da linguagem. Momentos há em que ninguém compreende nada – nem quem fala nem quem ouve, nem quem escreve nem quem lê. De onde as pessoas tiram tanta coisa louca pra colocar naquilo que falam ou escrevem?

Estava lendo umas coisas aqui, e me veio um pensamento: esse negócio de as palavras enganarem as pessoas. Ih, tem muita gente enganada, vítima das palavras. Parece até não ter jeito. Muita gente reclama, discute, questiona, mas nada de sugestão útil para o problema. Também não sei a mágica, claro. Mas sei o rito pelo qual é possível se chegar a uma outra realidade.

Talvez curando a aberração de não ler, coisa comum entre a maioria de nossos estudantes. Ou de não saber ler, não entender bem aquilo que está lendo (o contrário é o que eu chamo de desler). Porque é chato não saber ler, principalmente pelo fato da possibilidade de sermos, muitas vezes, enganados pela palavra. Olha só: ler e mostrar em seguida o caminho da leitura, criar um novo texto, (re)fazendo, deixando as marcas de uma individualidade – será difícil? Não é muito fácil, eu sei, mas aos poucos a gente consegue.

Quisera eu nunca ter de me ver, súbito idiota, na luta vã de querer dizer e não saber. Gosto de saber, de saber que sei e poder dizer quando quero. Língua por baixo. Mas o engano da palavra também existe, e é, para a maioria das pessoas, a coisa mais absurda e linda que se possa provar. Só é menos bonita do que as vezes em que, de um salto, a gente consegue o que pensou. É como o prazer da leitura. De repente não é nada, depois vira uma possessão; não há como se livrar dela. O sujeito possuído nem de longe percebe que está, mas adora. Não rapidamente, é devagar, assim como ir conhecendo o gosto de uma fruta, pra se ir gostando a cada mordida, tirando proveito.

Aconteceu comigo. Primeiro fiquei assustado com as coisas estranhas que os livros traziam, e pior, com a forma estranha com que me comportava ao ler determinados livros. Aquele frenesi, aquela loucura de me sentir alheio: às vezes um santo hipnotizado, atraído pelo mistério de uma força inexplicável; às vezes uma mulher seduzida pelo erotismo dos sons, das imagens, do conteúdo das palavras. Do mesmo jeito quando comecei a escrever: mordendo a fruta da língua aos pedacinhos, e degustando. Mais tarde descobri algumas coisas, vi que o estranhamento, a loucura, o frenesi, a sedução acompanham quem escreve. Escrever assusta, mas logo, logo o medo passa. Em seguida vem o espanto por ter conseguido desvendar o sentido oculto das palavras. De novo, língua por baixo.

Não sei direito como me surgiu essa idéia de que ler e escrever é como estar possuído, não lembro, mas o leitor, e o escritor, têm essa mesma impressão. Ora, o escritor sente isso, a cada experiência ele descobre, homem de dupla vantagem entre os demais, porque lê e escreve ao tempo que pensa, olha as coisas e tenta descobrir alguma novidade para o mundo (é lógico que falo do escritor como artista). Viu? Dupla vantagem. Como o Mário Quintana já disse sobre o livro, algo assim: “No livro você pode estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.

Mas eu penso que escrevendo a liberdade é maior. Pelo menos, a gente sente que está mandando mais, que manda numa espécie de outro que está cara a cara com você, ou seja, você mesmo. No livro, na leitura, o outro é um alguém que a gente não reconhece de imediato, e, muitas vezes, não se reconhece nele. Língua por cima.

A idéia sobre leitura e possessão, lembrei agora: li numa crônica do professor Rubem Alves. Aliás, acabei de revisitá-la, e tirei isso de lá, uma citação de um conto do Graciliano Ramos, no livro Infância: “Ensinaram-me um ditado na escola. ‘Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém’. Eu sempre repetia o ditado, mas ficava em dúvida: ‘Quem será esse tal de ‘Tertião?’”

Acho que falar pouco e bem é difícil. Tem a ver com a língua por baixo. Quem consegue, aprendeu, sabe mandar. È como ler pouco e entender bem, uma arte. Embora tudo comece no ouvido, como já disse certa vez.

Aquela minha doidice de falar da importância de os professores lerem pros seus alunos em sala de aula tem tudo a ver. Detesto o professor que não pratica a leitura prazerosa em sala de aula, principalmente a do texto literário. Fico com a imagem do educador que faz do texto uma espécie de música, e de seus alunos aprendizes dessa arte. Coisa mais bela não há!

Novamente minha idéia se assemelha a do Rubem Alves. Eis um trecho da crônica dele pra você entender melhor; chama-se “O prazer da leitura”, uma reflexão que introduz muito bem a questão sobre o ler, que muita gente ainda não aprendeu, e que a escola não ensina direito:

Leitura é droga perigosa: vicia… Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula “se“, dígrafos, encontros consonantais, análise sintática –que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária se inicia antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. E a missão do professor? Mestre do kama-sutra da leitura…

Fico com essa alternativa para os professores. Resta pensar agora em como ensinar a escrever. Mas tem a pergunta: isso só se faz na escola? Acho que não. Talvez esse mesmo que inventou a linguagem não houvesse pensando na escola, embora soubesse que um dia teríamos que estar sempre – língua por cima, língua por baixo – loucos para dizer alguma coisa. Mas, repito, faz parte do jogo. Quem imaginaria que um dia poderíamos chegar a tanto: ‘Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém’…

*Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em 14|07|07.

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.