Crônicas

Livardo Alves, agora morando noutro “país”, continua de lá vendo tudo

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo. Foi assim que poeticamente filosofou Mario Quintana, o meu poeta “menino de aquário”. Tinha razão. Sempre. Muitas coisas desse amigo que há 14 anos trocou de roupa e foi morar noutra cidade, nesse tempo ficaram paradas. Parece que foi ontem! O lugar é comum e o ontem nem hoje é mais. Nunca será. Mas a saudade continua morando no “aqui e agora”.

É assim que hoje 17 de fevereiro de 2016 estou me sentindo. Sinto a vontade de lembrar/falar de Livardo Alves da Costa ou simplesmente Livardo Alves, como assim esse jaguaribense (do bairro Jaguaribe, na capital da Parahyba) e compositor ficou conhecido em todo o país pelas suas “Marcha da Cueca” (“eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato”) e a não menos conhecida e cantada por muitos e declamada magistralmente pelo gaucho João Almeida, “O meu país”, composição dele, Orlando Tejo e Gilvan Chaves.

A história dessa composição, “O meu país”, sem que me pedissem, o que somente aconteceria anos depois, eu já contei neste singular espaço do cronicascariocas.com*. Hoje, 14 anos depois de sua mudança, não posso esquecer de lembrar esse poema que, assim como aconteceu em anos distantes com a composição de outro parahybano, “Pra não dizer que não falei de flores”, cantada “nas escolas, ruas, campos e construções”, poderia ser cantado e declamado nessas mesmas escolas, campos, construções e casas deputativas.

O meu amigo Livardo Alves, embora muitos não saibam, cantou a sua e a minha Parahyba como nenhum outro artista destas plagas. Lembro-me que já doente, sentindo as dores do câncer de próstata que o tiraria de campo, como de fato o tirou, confessou-me que o seu medo maior não era de morrer, mas em saber que um dia teria de se mudar de sua – nossa – Parahyba.

Era um boêmio o meu amigo. O último que ainda vivia a noite por aqui, sem desejar um lugar ao sol. Assim são os verdadeiros boêmios. Hoje, 14 anos de sua mudança, uma homenagem que, se morando por aqui ainda estivesse, preferiria o seu característico “ducaralho” e espalharia um largo sorriso que acabaria em gargalhadas. Deixo, pois, aqui, o poema o “Meu país”, esse dele, do Orlando Tejo e Gilvan Chaves, na certeza de que “Um país que engoliu a compostura /Atendendo a políticos sutis /Que dividem o Brasil em mil brasis /Pra melhor assaltar de ponta a ponta /Pode ser o país do faz-de-conta…”, continua não sendo o nosso país.

O meu país

“Tô vendo tudo, tô vendo tudo / Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina /Que não ouve o clamor dos esquecidos /Onde nunca os humildes são ouvidos /E uma elite sem deus é quem domina /Que permite um estupro em cada esquina / E a certeza da dúvida infeliz / Onde quem tem razão baixa a cerviz / E massacram – se o negro e a mulher / Pode ser o país de quem quiser / Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país onde as leis são descartáveis / Por ausência de códigos corretos / Com quarenta milhões de analfabetos / E maior multidão de miseráveis / Um país onde os homens confiáveis / Não têm voz, não têm vez, nem diretriz / Mas corruptos têm voz e vez e bis /E o respaldo de estímulo incomum / Pode ser o país de qualquer um / Mas não é com certeza o meu país.

Um país que perdeu a identidade / Sepultou o idioma português / Aprendeu a falar pornofonês / Aderindo à global vulgaridade / Um país que não tem capacidade /De saber o que pensa e o que diz / Que não pode esconder a cicatriz /De um povo de bem que vive mal / Pode ser o país do carnaval / Mas não é com certeza o meu país.

Um país que seus índios discrimina /E as ciências e as artes não respeita /Um país que ainda morre de maleita /Por atraso geral da medicina /Um país onde escola não ensina /E hospital não dispõe de raio – x /Onde a gente dos morros é feliz /Se tem água de chuva e luz do sol /Pode ser o país do futebol /Mas não é com certeza o meu país.

Tô vendo tudo, tô vendo tudo /Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo / Um país que é doente e não se cura /Quer ficar sempre no terceiro mundo /Que do poço fatal chegou ao fundo / Sem saber emergir da noite escura /Um país que engoliu a compostura /Atendendo a políticos sutis /Que dividem o Brasil em mil brasis /Pra melhor assaltar de ponta a ponta /Pode ser o país do faz-de-conta /Mas não é com certeza o meu país.

Tô vendo tudo, tô vendo tudo /Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo”.

Livardo Alves, agora morando noutro país, continua de lá vendo tudo


*Abaixo, acesse duas crônicas de Humberto de Almeida sobre o poeta Livardo Alves:

(1)“O dia em que Livardo Alves trocou de roupas e foi morar noutra cidade”
(2)“Livardo Alves é Homenageado com Estátua em Bronze no Escritório Onde Fazia Ponto”

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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