Crônicas

Livardo Alves é Homenageado com Estátua em Bronze no Escritório Onde Fazia Ponto

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Assim como dizia o Jack Estripador num papo descontraído com as suas vítimas, vamos por partes. Depois de escrever aqui e alhures sobre Livardo Alves, pulando e escapando das pragas dos urubus que ainda hoje sobrevoam os lixões da cidade, cobrando e todo dia emputecido porque ninguém pagava a homenagem que ele merecia, não poderia deixar de assistir, finalmente, a inauguração (sic) da “estátua de corpo inteiro” do compositor de Doces Erva no seu “escritório” do Ponto de Cem Réis, centro da cidade, a nossa Boca Maldita.

Antes, porém, muito antes, acostumado com o povão que esquecer o pão em casa para pedir mais circo, apostei com a Morena, e ela, prestes a cometer o mesmo ledo Ivo engano meu, não apostou, porque achou que perderia. Disse-lhe que o espaço era pequeno – a Quadra de Esportes em que se transformou o centro – para um show do tamanho do sucesso de Elba Ramalho. Errei sim, Morena, mas não manchei o teu nome.

Deve ser porque ainda estamos na “boquinha da noite”, como costumava dizer o homenageado quando o sol despedia espalhando fogo lá pra bandas do Porto do Capim. Mas, se presente estivesse no dia em que sentou Praça no Ponto de Cem Réis numa escultura que, se colocada em pé, daria um Livardo e meio, veria que estava enganado.

Quatro horas após a nossa chegada, isto é, às onze horas, se não havia apenas alguns “gatos pingados”, pois não sou burro o suficiente para afirmar tão coisa, muitas gatas e outros animais, no melhor dos sentidos, pastavam ali. O povão, esse o público da saltitante Elba Ramalho, como vi pela televisão, tomaria toda a Quadra de Esportes do Ponto de Cem Réis. Mas somente chegaria lá pela meia-noite, depois de calibrado o nível de bebidas em outras plagas. Assim, como profetizou o alcaide presente, o “povo se apropriaria de uma coisa que era sua”. Entenderam? Eu não.

A estátua em bronze, rejuvenescida uns quinze ou vinte anos, como podemos constatar depois do seu descortinamento, trazia no rosto (nele mesmo) aquela expressão de “tanto faz, como tanto fez” tão característica sua. Se não era a sua cara, pois o “desenhista”, por não conhecer o artista por dentro, foi incapaz de trazê-lo pra fora – “viver é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro” – valeu pela intenção. E sem reticências.

Não vou entrar na parte que os estripadores gostam mais. Mas, para não dizer que achei tudo xis-caçarola, por tabela, lembrando o meu irmão distante cujo livro de crônicas foi batizado exatamente assim, direi que a estátua em bronze de Livardo poderia ser mais bem representada pelos amigos e família que, estando a família presente, se ausentaram os amigos. Onde estavam os amigos de Livardo Alves?

Dos muitos, encontrei apenas o Walter Santos, presença constante nos movimentos artístico e cultural da Província das Acácias; Bola, companheiro que rolou por toda a vida pelos campos da cidade em companhia do homenageado; Rubinho Parahyba, parceiro de copo, fumo e cruz, pois, amigos, dividiam o peso dessa última sem reclamar da distância a ser percorrida com ela nas costas, e… Quem mais? Ah, o bom caráter e fotógrafo e historiador fotográfico Antonio David, o único, pelo que me consta, a ter nos seus arquivos as melhores fotos de Livardo Alves ainda em estátua de carne e osso.

Mas confesso que não fui ao Ponto de Cem Reis para assistir ao show de Elba Ramalho. E se lá estivesse no momento em que a chuva caísse trazendo coisas do céu e lavando o “corpo físico” de Livardo Alves, não me protegeria pegando carona no circo dela. Elba Ramalho, como aquela roupa velha que o Belchior vestiu o seu passado, é uma cantora ou intérprete ou atriz ou cantriz que não se escuta mais. Ou melhor: este escriba que nunca foi de escutá-la tanto, não escuta mais.

Mas esquecendo a Elba Ramalho que não vi, para a grande satisfação deste pobre consumidor de arte, vi/ouvi a Orquestra Sanhauá regida pelo excelente Radegundis Feitosa. E quem não ouviu, perdeu o bonde musical da história do aniversário desta senhora de 424 anos e da merecida homenagem a esse artista que inúmeras vezes, incontáveis vezes, disse para este escriba um “músico ducaralho!” expressando sua admiração por esse mestre do trombone itaporanguense.

O ataque dos metais da Orquestra Sanhauá em uma das excelentes Coisas de Moacir Santos – seu primeiro álbum solo, lançado pela Forma, em 1965, chama-se Coisas (!) – pagou todos os dissabores da ausência dos amigos do meu amigo Livardo Alves, e a falta de jeito – digamos assim – dos que não souberam respeitar e receber os amigos, mesmo os poucos, que ali responderam presente. Uma pena.

Mas voltando à orquestra com os seus trompetes, saxofones e trompetes no ritmo da mais musical das Coisas do Moacir Santos, encontrar Radegundis Feitosa, esse mestre do trombone e da simplicidade – “1 Berto, cara, que orgulho e alegria saber que estavas no meio do povo ouvindo a minha musica!” –, foi tão bom que, apesar de tudo e de todos, confesso que valeu, confesso que vivi e, como não poderia deixar de ser, confesso que bebi.

Mas fazer o que, Livardo, se agora morto – não seria uma contradição? – para viver eternamente o que te resta é esquecer os vivos que deixaste por aqui? Esses sim, Livardo, não levantam mais!

*Abaixo, acesse duas crônicas de Humberto de Almeida sobre o poeta Livardo Alves:
(1)“O dia em que Livardo Alves trocou de roupas e foi morar noutra cidade”
(2)“Livardo Alves, agora morando noutro “país”, continua de lá vendo tudo”

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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