Love: arte ou pornografia?

by Luciano Fortunato | 23/07/2017 18:34

Com bons dois anos de atraso, como já é de costume comigo, assisti ao filme Love, de Gaspar Noe. Acabei de ver. É dessas produções que carregam a pergunta: o filme é erótico ou pornográfico? Acho a pergunta meio besta, pois a discussão pode ser mais profunda, haja vista a defesa que muitos fazem de que pornografia também pode ser uma forma de arte.

Gostei muito do filme. Muito mesmo. A cena inicial, por ser totalmente explícita, pode causar frustração a alguém que espere do filme um “pornô com história”, pois ele absolutamente não é isso. Quando lançado, o fato de ter sido feito em 3D chamou muito a atenção, atiçando a curiosidade sobre como seria ver cenas de sexo explícito em 3D. Quem foi ver o filme pensando nisso deve ter se frustrado duplamente. Eu, que vi o filme num DVD simples, gravado por um amigo – não sei baixar filmes –, fiquei imaginando onde o 3D caberia num filme com pessoas conversando e fazendo sexo. Essa eu perdi. Há planos sequência muito bonitos onde cabe a experiência tridimensional, sim, por que não? Aliás, Gaspar Noe conseguiu um memorável exercício de estilo. No início parece que um filme esteticamente monótono vem pela frente. É aí que vem o espanto: subitamente, surgem cenas de rara beleza plástica e inventividade. Constatado isso, o filme nem precisava ser profundo. Mas aí ele vai e nos surpreende novamente, trazendo uma discussão sobre o amor completamente coerente com o título Love. Não é apenas um filme de amor e sexo: é sobre amor e sexo. Mas tudo de forma simples e direta, sem teorizar. Em um diálogo, o personagem principal – um tipo de alter ego de Noe – pergunta à sua amada sobre qual é a coisa mais importante do mundo, ao que ela responde ser o amor. Então ele pergunta sobre a segunda coisa mais importante. Ela responde sexo. Ele então conclui: “imagine unir essas duas coisas…”. Não dá para o expectador interessado em filmes de amor ficar incólume a diálogos como este, que o filme ostenta em profusão.

SEXO E DROGAS – Sinceramente, mesmo o filme trazendo várias cenas de sexo explicito, algumas realmente muito bonitas, o que é mais pesado nele, pesado de verdade, é a conjugação sexo e drogas. Todos os personagens – com exceção de um menininho – usam drogas. O tema não é abordado com moralismo, embora os personagens se mostrem completamente desnorteados pelas drogas, chegando a admitir isso em uma ou duas cenas. Realmente esse aspecto dá um tom “barra pesada” à coisa toda. De toda forma, as cenas de sexo acabam sendo, obviamente, o grande atrativo – o que foi tratado por muitos como apelação. Isso pode fazer com que desmereçamos o filme, o que seria um pecado, pois Love é um filmaço. Pena a crítica ter caído de pau nele: talvez tenham esperado um filme mais excitante e menos triste e arrastado. O ritmo é lento, sim, como tantos outros bons filmes de ritmo lento. Não posso deixar de lembrar que é realmente para um público adulto, ainda que muitos críticos o tenham considerado “pouco erótico“. É bom ir com cuidado. Ainda que seja um estudo sobre o amor, não é para pais e filhos assistirem juntos, tampouco pra se colocar numa sala de aula, pelo amor de Deus.

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