Crônicas

Mãe

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Perdi minha mãe há poucos dias. Todos sabem que, mais cedo, ou mais tarde, isso vai acontecer, é a ordem natural das coisas. A morte é um desfecho inevitável, e deixar que as pessoas que amamos morram antes de nós é uma prova de amor, que espero receber de alguns, de preferência muitos, dos que me cercam. Mesmo assim, usando uma expressão que ouvi da minha mãe, faz tempo: a carne chora.

Choramos a ausência física, porque aquilo que cada pessoa que convive conosco deixa impresso em nossa vida, só desaparece quando nós próprios deixamos de existir. Mas haverá um momento em que os rastros individuais da maioria de nós se apagarão por completo. As lembranças perduram, talvez, por duas ou três gerações antes de se perderem ou se transformarem em lendas não confiáveis. Até as figuras públicas que a História se encarrega de preservar são vítimas desse anonimato, pois, ao longo dos séculos, o foco se concentra em alguns aspectos de suas vidas, escrutinados e submetidos a sucessivas interpretações de terceiros.

Minha mãe faleceu inesperadamente em Portugal, terra onde nasceu e que adorava. Ouvi de muita gente, que isso teria sido uma opção dela. Se assim foi, foi inconscientemente, como parte de um plano maior que escapa à compreensão primária, já que, até o final, ela lutou para sobreviver. Porém, cumpriu-se o seu desejo de ser sepultada junto a seus pais e irmãos, dos quais se recordava constantemente nos últimos dias de vida.

Quase centenária, dona do seu nariz, senhora de suas decisões, nunca perdeu a lucidez e a inteligência, feito raro para quem chega a essa idade. Preservava a independência escondendo de mim alguns segredos de polichinelo, mas eu a conhecia muito melhor do que ela imaginava. Bastava-me ouvir a entonação de sua voz para saber se estava bem ou não.

Uma das coisas mais importantes que aprendi com a minha mãe, através de suas atitudes, é que as pessoas não são totalmente boas, nem totalmente más. A opinião dela sobre os indivíduos e os acontecimentos oscilava entre dois polos: perdoava com certa facilidade, esquecendo-se do que não lhe interessava lembrar, embora ao mesmo tempo fosse capaz de buscar no fundo da alma intensos sentimentos de mágoas antigas. Era, acima de tudo, um

animal social, com amigos de todo o tipo e de todas as classes. Possuía um notável talento para o convívio, sem que se deixasse dominar por ninguém. Era uma estrela, e sabia.

Muita gente admirava a força da minha mãe. Nada mais justo, porque foi uma lutadora incansável. Qualquer dia desses, conto mais. Agora não dá.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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