Crônicas

Mais uma Olimpíada viraremos um Butão em flor!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Às vezes quero negar a minha condição de “brasileiro com muito orgulho e muito amor”, mas não consigo. Acreditem. Essa racinha – raça somente a humana – da qual eu faço parte, assim como o Fado daquele poeta, o Tropical, é mesmo sentimental. Ali no fundo, bem no fundo. Lá dentro.

Nesses dias, em férias lá fora e dentro de mim, assisti a algumas disputas em que o verde-amarelo estava em jogo. O futebol masculino? Ainda não cheguei lá. Torci. Mesmo sem assistir a uma só partida, confesso que torci. Ah, mas não sofri. Não sofro assim tão fácil.

Mas foi uma torcida meio assim, vocês sabem, como se estivesse em país outro e morrendo de saudade desse em que a casa da mãe Joana, mesmo sem conhecê-la, tenho a certeza de ser mais honrada, mais honesta e menos sacana do que ele, o meu país.

Muitos zombaram. Por quê? Ora, pelo fato de a primeira medalha do verde-amarelo vir com um tiro. Mas, graças a Deus, que sendo brasileiro torce pela gente, apesar de o seu representante maior ser argentino, não teve nada de bala perdida.

Se torci? Torci. Mas confesso não ter sido um daqueles torcedores que deixa de lado, por exemplo, um livro de Fausto Wolff, esse que um dia confessou torcer contra a nossa seleção e teve o meu apoio e de muitos, como falamos ainda quando o referido morava por aqui e vestia a roupa que ainda uso, para assistir a um esporte tão monótono que parece ter a direção de Michelangelo Antonioni, um mestre que sabe com poucos trabalhar o silêncio e os gestos cansados.

Confesso que mesmo quando as minhas mãos estavam ocupadas em inventar palavras, esganar pensamentos ruins, trucidar declarações idiotas do prefeito do Rio de Janeiro e presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, meu coração fechava os olhos e sinceramente gritava “pra frente Brasil!”. E a emoção era – continua, continua – tamanha que, assim como no Fado famoso, quase choro!

Torço. Confesso que torci – vejam só – até para que o meu país ganhasse uma medalha em… Ping-pong! Tudo bem. Os “profissionais desse esporte” não admitem essa história de “Ping-pong”. Irão me chamar de ignaro. “Ping-pong, não! Tênis de Mesa!”, dirão engalanados (epa) para esse pobre torcedor.

E as “meninas do futebol”, essas que mesmo com algumas quase chegando à menopausa, continuam sendo chamadas de “meninas”? Essas que para o nosso orgulho maior e amor continuam mostrando que futebol é coisa de… Nada de “macha”, mas de mulher! Ah, como torci, torço e torcerei! Viva a mulherada!

Nem me lembrei do Temer. Acreditem. Se foi ou não vaiado, tudo bem, pois daqui também mandei a minha vaia. Apesar de achar que o público presente merecia ter o direito a um “minuto de vaia” para ele. Temer, assim como imagino ser a lembrança que muitos merecem no momento em que trocam de roupa e se mudam para outra cidade, não merecerá nesse dia um minuto de silêncio, mas um minuto de vaia.

E o espetáculo da abertura? Meu Deus! Esse é o meu país! Me ufanei! E nessa declaração, empolgado que estava, gritaram ao meu lado “cuidado”! Temer é muito mesoclítico, disseram, e o seu pronome está mal colocado! Não entendi. Foi aí que expliquei aos presentes que prefiro ser proclítico a ser enclítico! Acho que assim o ufanismo sai mais forte!

Feliz. Confesso. Se os colegas Orlando Tejo e Livardo Alves e Gilvan Chaves, responsáveis pela descoberta de um novo país, esse que eles viam tudo e faziam de conta que eram mudos, estivessem ainda morando por aqui, estando apenas o Orlando Tejo, infelizmente, num corpo sem a consciência dele, como hoje acontece, iriam se orgulhar dele.

Miséria e Corrupção? Mais de 10 milhões de desempregados? Um mosquito deixando o país nocauteado no primeiro round? Corruptos saindo pelas janelas das prisões? Esse pode ser o país de qualquer um, um país do faz-de-conta, mas com certeza não foi esse o meu país que abriu essa Olimpíada como Deus deve ter aberto o paraíso para Adão e Eva! Uma beleza! Belo pais tropical abençoado por Ele, Deus, e bonito por natureza!

Depois dessa abertura cantada em versos e trovas por aqui e em alhures, o meu, o nosso país nunca mais será o mesmo! Nunca se viu tanta beleza e segurança nas ruas! De repente, um desavisado vendo tantos militares nas ruas armados dos pés às respectivas cabeças, pensará que estamos voltando ao passado! Um passado em que um tiro não era capaz de medalhar ninguém. Tem mais: o alvo do tiro era outro completamente diferente!

Eu, sinceramente, nunca fui brasileiro com tanto orgulho e tanto amor! Meu Deus! Como é bom ser brasileiro em tempos de Olimpíada! Tomara que tenhamos outra logo, logo! Ora, se com uma resolvemos uma porrada de problema, com duas iremos vender experiências para o estrangeiro!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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