Crônicas

Marcelo Mourão: entre o voo da flecha e a máquina mundi

Marcelo Mourão: entre o voo da flecha e a máquina mundi
Tchello d'Barros
Escrito por Tchello d'Barros

Ter em mãos uma versão impressa deste Máquina Mundi, já é um mote para desconfiarmos do autor, pois desde que Marcelo Mourão lançou seu O Diário do Camaleão, que somos provocados com o benefício da dúvida, seja sobre o sistema em que vivemos, sobre a sociedade multifacetada em que estamos inexoravelmente inseridos, seja sobre a metalinguagem da literatura em si, em seus meandros marginais, acadêmicos e midiáticos.

E essa desconfiança aumenta na dimensão em que somos como que instigados a questionar a própria realidade também, já que nesta nova reunião de poemas, encontramos vários autores que assinam a mesma obra. Sim, vários. Logo de início temos alguém que nos convida criticamente a nos darmos conta do quanto estamos impregnados desse novo mundo digital, em como nossa idade-mídia nos converte em seres virtualmente hiperconectados, ao tempo que nos distanciamos presencialmente uns dos outros.

Sim, o autor desconfia dessa vida cibernética. E nos contagia, questionando o status quo vigente.  Há um outro literato que se move entre os poemas, um outro Marcelo, em sua faceta de professor, que em seu viés acadêmico nos remete aos filósofos antigos mas também as inquietações dos contemporâneos, que nos apontam essa modernidade líquida em que estamos submersos, chegando mesmo, insólito, a realizar uma prova inesperada, onde nós alunos leitores, teremos que assinalar a questão correta sobre o lugar na atualidade para valores como o amor, a amizade e as relações, em nossa apressada pós-modernidade.  Acho que errei a maioria…

Afirmo que deve-se desconfiar desse livro, pois encontramos aí também essa voz autoral acostumada com a oralidade da poesia, do verbo feito poema, do bem dito verso, extrato dos inúmeros saraus em que o poeta sempre participou e continua soltando o verbo. São poemas de vocábulos, que podem ser lidos em voz alta, melhor ainda se ditos a plenos pulmões nos microfones e tertúlias da vida.  Neste jogo de simulacros, o autor maquina algumas simulações entremeadas de neologismos – amorderno, sentimenso, desconstruição, tudenada, poemafestivo etc – usando eventualmente de estrangeirismos, abusando de linguajares, ressignificando gírias, apropriando-se da fala cotidiana, explorando a visualidade da escrita e dilatando os contornos de seu material de trabalho, nossa sempre inculta e bela flor do Lácio.

Desconfiar é preciso, pois se procurar bem nas entrelinhas, acha-se ainda um escritor que chega para nos contar de suas afetividades, de suas amorosidades, e mais: confidencia-nos em sussurros, um caso tórrido com essa esquiva senhorita, a própria poesia. Falamos aqui de alguém que faz da escritura dos versos, tema e musa ao mesmo tempo. Não se pode deixar de notar também um fabulador de pequenas narrativas, que se infiltra aqui e ali, que nos brinda com breves historietas. Trata-se da faceta de bom conversador, de quem sabe que jogar conversa fora também é uma arte. Vemos esse autor conversando com seus pares, os amigos da cena literária carioca, fluminense, brasileira. E que conversa também com os fundadores de sua estética pessoal, esse caudal de referências e nomes, seus fantasmas prediletos.

Por isso tudo que desconfio que Máquina Mundi não se trata de um livro mas de uma versão gráfica de uma roda de conversa, um sarau impresso, um diálogo de muitas vozes e caligrafias, onde os vários autores-personagens nos ensinam que nessa leitura,  “o melhor da flecha é seu voo / e não a chegada ao alvo”, e assim, assinam todos o mesmo autógrafo: Marcelo Mourão.

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Sobre o Autor

Tchello d'Barros

Tchello d'Barros

Escritor e Curador de Artes Visuais. Realiza editorias independentes e curadorias em diversas instituições culturais.

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