Crônicas

Me elogie ao gerente

Tarcísio Pereira
Escrito por Tarcísio Pereira

Enquanto comia a pizza, a esposa observava as lindas coxas da garçonete. Irritava-se de vê-las tão expostas, e tinha vontade de dizer ao gerente que aquilo era uma pizzaria, não uma boate para programas de mulheres. Ainda assim resmungou baixinho, para o esposo ao lado:

– Não sei por que vestem as garçonetes com mini-saias… Você não concorda comigo?

O marido, com a cabeça abaixada e sempre de boca cheia, sabia que ela o estava testando, e respondeu de forma evasiva:

– A pizza está uma delícia.

O efeito não funcionou e, portanto, a mulher não disse mais nada, e voltou a comer silenciosamente. Até ao final da refeição, em nenhum momento flagrou o olhar do marido para as lindas coxas da garçonete. Esta passava, sempre sorridente, entre uma mesa e outra, e normalmente parava ao lado deles para perguntar:

– Está faltando alguma coisa?

Era o momento em que o marido a olhava, também sorrindo:

– Não, não, obrigado. Você é muito gentil.

A esposa morria com aquilo. E tinha vontade de lhe dizer que não via necessidade para tantas simpatias. Mas controlou o ciúme e disse a si mesma: “Ando imaginando coisas”.

Aliviada, esqueceu a cisma, recomendando-se a parar com desconfianças.

Minutos mais tarde, o problema se agravou. Quando o marido pediu a conta, ela teve a impressão de que a garçonete, ao passar o extrato para ele, lhe entregara também um bilhetinho dobrado, abaixo do outro papel. O marido ficou ligeiramente lívido, e olhou para a atendente de boca aberta. A moça saiu dizendo isto:

– Pode pagar no caixa, por favor.

A esposa, para confirmar, pediu ao marido que lhe passasse o extrato:

– Passe-me a conta, querido, que eu mesma vou ao caixa e pago.

Mas ele se levantou nervoso, rapidamente, nem dando tempo que ela lhe tocasse.

– Preciso ir ao banheiro, e no caminho eu pago a conta.

E saiu. Foi quando a esposa teve a certeza do bilhetinho. Dali mesmo, durante a ausência dele, olhou para a garçonete com uns olhos de víbora, e pensou em armar o seu barraco na frente de todos. Mas respirou fundo e resolveu fazer pior, quando o marido voltasse. E se pôs a pensar em todos os detalhes da ação.

Enfim se levantou, foi ao caixa e, chegando lá, já encontrou o marido falando com o gerente. E, antes de qualquer coisa, pôs-se a escutar o que o marido dizia:

– Olha, eu quero parabenizá-lo pelo excelente atendimento da sua pizzaria. E falo principalmente por aquela jovem que atendeu, com muita simpatia, a mim e à minha esposa, esta que acaba de chegar. Veja, esta é a minha esposa! Estou dizendo para ele, querida, que ele tem uma excelente funcionária. Uma funcionária como aquela, senhor, a gente não pode perder.

Pagou a despesa, ouviu palavras cordiais do gerente e, ao fim das contas, foi a esposa agora quem falou ao homem, chamando a atenção de todas as mesas:

– Agora, que o meu marido falou, eu quero dizer ao senhor que lamento pelo péssimo comportamento da sua funcionária. Sugiro, inclusive, que o senhor mude o uniforme das garçonetes, porque isto aqui não é nenhum cabaré. Saiba o senhor que aquela garota é uma destruidora de lares. Ela quer acabar com o meu casamento, é o que digo. E sabe por que digo isso? Porque ela passou um bilhetinho para o meu marido, na hora em que entregava a conta. E vamos embora logo, que eu estou com nojo deste lugar!

Agarrou o braço do marido e arrastou-o entre as pessoas. O coitado, suando, não conseguia dizer nada, embora tentasse se justificar. A garçonete, num canto, chorava envergonhada, enquanto as colegas tentavam consolá-la. A voz do gerente vibrou atrás do caixa, gritando para ela:

– Faça o favor de mudar a roupa e devolver o uniforme. Você está despedida!

Na rua, uma pancada forte da porta do carro: a mulher indo embora com o seu marido, ainda discutindo alto. Permaneceram brigando durante a noite inteira. E ele, por orgulho, insistiu negando a história do bilhete. Ela fechou o quarto por dentro e ele dormiu no sofá da sala.

Na manhã seguinte, agora mais calmo, ele disse à mesa do café:

– Olha aqui uma coisa: eu neguei que tivesse recebido um bilhete, mas só neguei porque não concordo com o escândalo que você fez. Agora, no entanto, resolva com a sua consciência pela injustiça que cometeu contra aquela garota.

– Aquela piranha, é o que você quer dizer.

– Pois então abra e veja agora, com os seus próprios olhos, o que a tal “piranha” escreveu para mim.

Entregou-lhe o bilhetinho de ontem à noite. A mulher abriu e leu a seguinte frase:

“Por favor, senhor, me elogie ao gerente. Hoje termina o meu estágio. Eu preciso demais desse emprego”.

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Sobre o Autor

Tarcísio Pereira

Tarcísio Pereira

Jornalista e Publicitário, Escritor e Teatrólogo, atua nas áreas de comunicação e cultura.

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