Crônicas

Me engana que eu gosto

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

POR CLAUDIA G. R. VALLE*

Quem nunca se encantou com a foto do lindo hotel escolhido para passar uma semana em Paris? Claro que a publicidade não mostrava que para chegar à maioria dos quartos era preciso enfrentar uma escadaria velha, dessas que rangem a cada passo, ligando o edifício principal ao anexo, ambos com cinco andares, sem elevador.

A maioria das fotos é mais atraente que a realidade: de spas a restaurantes, o mundo está cheio de exemplos. Não é propaganda enganosa, muitas nem foram retocadas, bastou escolher os melhores ângulos e caprichar na iluminação.

E não me diga que as suas fotos no Facebook não são escolhidas pelo mesmo critério. As pessoas gostam de se apresentar lindas, ou inteligentes, ou descoladas, ou tudo isso junto. A realidade, bem… é assunto para ser resolvido depois.

Namoro na internet ou sexo por telefone: você sabe que está enganando ou sendo enganado de alguma forma. Mas importa realmente? O outro que se defenda. Se a gente aceita contos de fadas onde alguém passa cem anos adormecida, e ainda assim está jovem quando o príncipe encantado aparece para o beijo redentor, por que não viver nosso próprio conto inventado? Verossímil, de preferência. O único perigo é a própria pessoa acreditar no que inventou.

Quem confia na existência de todas essas modelos lindas que aparecem nas revistas? Claro que há mulheres realmente maravilhosas, mas na maioria dos casos a produção é tudo. Mais de uma vez li entrevistas de atrizes famosas preocupadas em desfazer a imagem excessivamente artificial criada em torno delas. Você também sabe disso, e tem consciência de que nem toda a produção do mundo vai conseguir transformá-la num mulherão daqueles, mas insiste em tomar as modelos lindas como parâmetro. Sem comentários.

Sua amiga pergunta se você acha que ela está gorda. Vai encarar a verdade ou prefere manter a amiga? Ela tem certeza da gordura, mas se sentirá bem ouvindo uma pequena mentira consentida. Fútil? Pelo contrário: essas conversas de faz-de-conta são reconfortantes, principalmente em situações difíceis. Imagine um doente desenganado: a verdade nua e crua em nada contribui, física ou espiritualmente, para melhorar a conjuntura. Escolha fingir sinceramente que a vida é leve.

Término de relacionamento. A pessoa afirma que o problema não é com você, é com ela, que está numa fase complicada e não sabe o que quer da vida. Acreditou? Console-se: de alguma forma ela se importa com você e quer causar o mínimo possível de mágoa. Se não fosse assim, mandava direto para a pqp ou desaparecia sem dar explicações.

Gostou da crônica? Elogie. Vou adorar, mesmo não acreditando.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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