Crônicas

Mesmo não sendo sólida a “coisa feita” também se desmancha no ar!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ela não diz “bruxaria”. Ah, isso nunca! Não sei bem o porquê. Talvez seja o medo da palavra. A mesma coisa que acontece com os que muitos temem dizer a palavra “azar” ou entrar pela porta dos fundos. “Coisa feita”. É assim que ela diz. Tudo o que a medicina não pode explicar ela sente que “ali tem coisa”. Uma “coisa” que vai além do seu entendimento. No adianta: é “coisa feita”.

Eu diria “bruxaria”. Nunca temi as palavras. Temo o silêncio não compartilhado. Não cúmplice. Também não acredito em bruxas/os nem em bruxarias. Alguns costumam dizer que não acreditam em bruxas, mas que elas existem. Não acredito nesses nem nas bruxas. Se alguma passou um dia por mim, não percebi. Se alguma também mandou imeiodizendo ser uma bruxa daquelas em que não acredito, perdeu o seu tempo. Não li, deletei-o (ó palavrinha infame).

Desde o inicio ela diz com a convicção dos que acham que descobriram que o monstro do Lago Nesse se mudou para a piscina da casa do vizinho que sentiu que ali tem “coisa feita”. Sentiu no ar – o cheiro deve ser de enxofre – que o “bicho feio” estava ali presente. Pausa. Esse é mais um pensamento seu que não tem futuro. Insiste – “E preciso desmanchar a coisa! E a coisa somente se desmancha com reza forte”!

Ela tem o ar de quem sabe das coisas. E se essas coisas forem feitas sabe mais ainda. Acho que tem experiência. E, se essa experiência ainda não teve, no mínimo tem alguém próximo experiente que conhece e sabe ser capaz de desmanchar a “coisa”. Não duvide. Confessa que viu um dia o “desmanchador de coisas feitas” desamarrando nós e botando pra correr o “bicho feio”. Assim mesmo. Bicho feio. Teme dizer o nome do “bicho”. Vi o medo na janela de seus olhos.

Mas não acho que a “coisa feita” é feita com facilidade. Pois, se assim fosse, seria uma coisa feita sem amor e sem arte. Pausa. Sem amor e sem arte? Ora, se essa arte é feita assim, deve ser mesmo uma “coisa feita”. Sem arte. A arte requer muita transpiração. Mas um pouco de amor com inspiração lhe fará bem. Muito bem. Embora para alguns a inspiração possa ser nenhuma.

A sua – dela – curiosidade me desperta ainda mais a vontade de saber como essa coisa que ela acha que é feita foi feita realmente. Não entra em detalhes. Sabe. Tem a certeza de que ali “tem coisa feita”. Não lhe pergunto de onde vem essa certeza de que tem “coisa feita” nesse embrulho. Pausa. A palavra pode até não ser essa – embrulho, mas como o caso aqui é “desfazer” o que está feito, um embrulho pode ocupar esse espaço.

Não lhe digo que não acredito em “coisa feita”. Por quê? Quero ouvir mais sobre esses “mistérios” que a sua crença – agora se entregou de corpo e alma a uma seita que aceita tudo, até cartão de crédito – insiste em mostrar e provar para que não acredita que “nós amarrados” podem ser desatados. Tem andado assim. Se não gosta do ambiente aonde chega, nenhuma dúvida ela tem: “aqui tem coisa”! Também feita? Responde-me com um “é…” que fica entre as reticências e a desconfiança.

Sei não, sei não, sei não mesmo! Mas não ficaria surpreso se começasse a dizer que fala com fadas e duendes que passeiam pelo seu jardim vestindo roupas coloridas e usando chapéus de pontas para o céu. Ela sabe que não acredito em almas nem espírito. O “estado de espírito”? Espero que seja o meu. Parahyba. Ela sorri. Agora, por favor, não me venham com história de “espírito maligno” e “alma penada”. Esses não tem estado em mim.

Mas e a “coisa feita”? Deixo para o meu alfaiate que é craque em fazer a minha roupa “sob medida” desfazê-la com as suas agulhas e tesouras douradas.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: