Crônicas

Meu celular, minha vida

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Entrei apressadamente no reservado do banheiro e virei-me para procurar onde pendurar a bolsa quando ouvi o baque. Numa fração de segundo percebi que o meu celular caíra no vaso sanitário.

Sem brincadeira: alguém deveria pesquisar essa atração que celulares tem por água, notadamente a dos vasos sanitários. Não aconteceu só comigo, conheço diversos casos semelhantes.

O celular caiu e morreu. Pelo que já tinha ouvido dos agora companheiros de infortúnio, a chance de recuperação era próxima de zero. O primeiro instinto foi sair correndo para comprar um quilo de arroz: dizem que mergulhando o aparelho em arroz cru a água é absorvida e o problema se resolve. Dizem também que é preciso deixar o aparelho lá por vários dias, mas sei de quem fez isso por duas semanas e o celular, que morto estava, morto ficou para sempre.

Melhor recorrer aos métodos convencionais e levar à assistência técnica. No meio do desespero surgiu-me um fio de esperança, afinal o mergulho não durara mais do que dois ou três segundos. No entanto o pensamento que me dominava era: como vou sobreviver sem as minhas fotos, a agenda, os joguinhos, o WhatsApp?

Por que justamente o celular tinha que cair? Não dava para ser a carteira, as chaves, a bolsinha de primeiros socorros femininos? Logo o celular, aquele objeto que eu nem sabia que seria inventado e agora não posso viver sem ele? Tinha razão o Steve Jobs.

Desconfio que o celular é uma espécie de vício, como fumar ou beber. Conformada, preparei-me para sofrer uma crise de abstinência. Mas, acreditem, contra todos os prognósticos, o meu telefone ressuscitou!

Quis dançar na rua e beijar o herói que conseguiu essa façanha. Só não beijei o próprio celular porque me lembrei do tipo de lugar onde ele havia caído. Aliás, verdade seja dita, o tal vaso sanitário estava impecavelmente limpo: uma felicidade dentro de uma desgraça.

Poucos dias depois, o celular me deu um novo susto. Ele só costuma estar em dois lugares: em casa ou dentro da bolsa. Na rua dei por falta do aparelho e voltei para buscá-lo. Não estava no carregador. Telefonei para o meu número várias vezes, sempre atendia a caixa postal. Revirei a casa toda, refiz os caminhos percorridos, perguntei às pessoas. Nada.

Desta vez o desespero foi total. Não alimentei nem um fio de esperança: obviamente perdera o celular na rua, alguém o havia encontrado e desligado, nunca mais o localizaria.

Não foi nada disso! Eu e meu marido temos o mesmo modelo de telefone e ele, distraído, pegou o meu sem perceber. Foi para uma reunião importante e desligou o aparelho para não ser interrompido. Só se deu conta de que estava com dois celulares iguais quando a reunião acabou. Ligou para casa e desfez o mal entendido. Eu só não cancelei a linha telefônica porque não sabia de imediato qual era o procedimento correto, mas foi por pouco.

Desconfio de que os celulares têm vida própria, e o meu está aprontando. Preciso dar um jeito nisso.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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