Crônicas

Meu título

Paulinho Vergetti
Escrito por Paulinho Vergetti

Por Pauliho Vergetti*

Hoje à noite, abrindo gavetas, olhando fotografias antigas, procurando documentos, me deparei com meu título de eleitor. Lembrei-me de tantas criaturas estranhas em quem já havia votado, e o nada que havia me representado esse meu gesto. Um grande documento, pensei, mas que hoje pouco pode representar-me. Mais um papel entre tantos outros que me acrescenta tão pouco como eleitor cidadão. Fechei a gaveta, segurei-o na mão, sentei-me numa poltrona ao lado do meu birô e, após dirigir-lhe um olhar triste, pus-me a pensar, fazendo reflexões acerca do meu quase meio século de existência. Debrucei-me em lembranças de fatos históricos, bons e ruins, vivenciados ou não por mim.

Lembrei-me de um passado agitado que me enviou lembranças desagradáveis. Marcaram-me profundamente os idos de 70, representados pelo “bom” desenvolvimentista fabricado pela fartura do dinheiro chegado ao país como faroleiro de empréstimos perversos. Endividados ao extremo, os governos ditatoriais mostraram trabalho para abafar a onda de terror que seu oceano de fúria trazia até à sociedade. As mazelas da ditadura não podiam ser mostradas. O teatro político era mais do que necessário. Seus atores fartavam-se com as benesses que o dinheiro público podia oferecer-lhes. Os países ricos, liderados pelos Estados Unidos da América, grudavam nesse dinheiro juros escandalosos e nos punham o carimbo de eternos devedores, candidatos à subordinação e à cumplicidade. Começávamos a morrer ali. Que pena!

Cresci ouvindo mentiras desses governantes. Diziam-nos que a Amazônia seria o pulmão do mundo e hoje vemos que não chega a um simples brônquio da América do Sul. O Brasil seria em vinte anos o celeiro do mundo, com suas safras recordes, no entanto seus grãos, embora fartos para nós, hoje não são suficientes ao menos para alimentar as Américas.

Ouvia dizer que nosso jeito especial de latino, nossa brasilidade nos levariam a liderar uma boa fatia dos povos do planeta. Ledo engano. Só começamos a tirar o pé da lama quando começamos a soletrar as palavras produção, produtividade e cultura de exportação. Esses governos microscópicos a que assisti, fomentaram a produção de coentro e cebolinha e, para guardar essas safras, construíram bilionários e suntuosos prédios. Esqueceram-se de dolarizar o tempero e a farinha de mandioca.

O dinheiro público continuava a escorrer ralo abaixo. A miséria chamou o brasileiro pobre para uma convivência forçada. Tínhamos, pois, a moldura cintilante abraçada aos retratos da fome e da miséria de um povo que queria apenas ser feliz.

Aceitamos o que nos foi imposto pela América rica. Compraram o controle acionário de nossas principais indústrias. Taxaram escandalosamente nossos raros produtos de exportação competitivos aos seus. Achávamo-nos endividados, órfãos do progresso e privados do poder de decisão. Nossa soberania, enquanto nação politicamente organizada, estava em cheque. Vi uma nação adoecer sem lágrimas.

A Igreja Católica proibia o controle da natalidade por meios artificiais. A fome desenfreada permitia o aumento da fertilidade das mulheres miseráveis que multiplicavam a prole em até duas vezes. Era-lhe preferível uma multidão de fiéis miseráveis porque o trabalho de conversão estaria facilitado. Os ricos, estes preferiam adorar suas fortunas. As igrejas estavam vazias deles. Os coronéis esconderam seus chicotes. Estavam perplexos. O mundo abria as cortinas de um palco desalentador. Víamos a inversão, quase total, dos nossos valores sociais. O santo caíra do andor apressado e, na procissão, perdia suas esperanças uma multidão de fiéis caminhantes e sem um rumo certo.

As ofertas de emprego foram reduzidas drasticamente. A máquina que chegava sorrateira impondo a modernidade solicitada pela competição do mundo produtivo, paria um desemprego feroz: era necessário, mais do que nunca, lucros e lucros. Este era o nome e o sobrenome da sobrevivência comercial desejada. Com ela chegou a demissão em massa, os grandes protestos políticos dos sindicatos, da sociedade dos famintos desempregados, tudo isso encenado em praça pública e sob a força inocente da repressão da polícia política. Ela não sabia o mal que fazia a si mesma, ao judiar de um povo que procurava um rumo certo.

Uma chuva de agonia caiu sem clemência nos ombros desse povo, levando suas esperanças para algum mar de ilusão. O desemprego empurrou o antes cidadão produtivo e feliz, para o abismo imoral dos pedintes despatriados. A vida mostrou a outra face da crueldade sem dar a passagem de volta.

Estávamos mergulhando no fosso da globalização. Mas, tínhamos nas calçadas de nossas casas, por onde passeavam nossos filhos, a fumaça desumana de traficantes sem coração, policiais desviados da ordem social e a serviço dos primeiros. A imprensa alertava para a pedofilia entre os religiosos e nascia forte um poder social paralelo que não admitia ser incomodado. O bandido se armava até os dentes e, destemido, assustava a quem ousasse interromper sua escalada de violência. O Brasil começava a ser escrito com “Z”. Éramos seres governados pela força econômica do uísque escocês, do remédio americano, do trigo argentino, dos tecidos asiáticos, dos relógios japoneses, enfim, dependentes do mundo em quase tudo, num entrelaçamento de valores tão esquisitos que não nos permitia respirar sem o oxigênio alheio, chegado até nós pela produção de matas que não as amazônicas.

Chegaram-nos palanques eleitorais mágicos. Eram como bons ilusionistas que nos distraíam, enganando. Acreditamos novamente em sua falácia fantasiosa. Era tarde. Fazer algo de concreto, dificílimo, mas tínhamos que fazê-lo. Sob os grossos e confortáveis edredons dos políticos transvestidos de seres humanos, teríamos que pôr o fogo salvador. Os obscenismos das ações que estávamos vendo, tinham que acabar. O submundo do crime torcia para que permanecêssemos omissos a tudo. O circo, apesar de repleto de expectantes, estava com seu mastro principal tomado pelo cupim do recomeço e das últimas esperanças de um povo que queria ser feliz. Os brasileiros que sabiam sambar lembraram-se de que também podia fazer instrumentos que empregassem seus dançarinos. Mexeram na economia, fecharam a porta da maioria das latrinas de onde saíam as pústulas que se diziam líderes sociais. Um túnel longo, enlodaçado e escuro, quando beijado por discretos raios de sol, nos mostrou onde ficava a tomada de energia em sua parede. Vi que no seu solo existia uma lâmpada pousada. Apanhei-a, pus no bocal da parede e ela acendeu. Pensei comigo mesmo que tinha renascido uma grande esperança de ver o Brasil voltar a brilhar, forte e belo. Oh! Que pena! Eu apenas dormia, e o meu título estava caído no chão ao lado da poltrona onde estava, molhado por um punhado de lágrimas patriotas que verteram dos olhos enquanto eu sonhava.

Mas não esqueci o sonho. Estou tão convicto dele que o escrevi nesta folha para não esquecer jamais que podemos voltar a sorrir em breve. Afastemos o mal, durmamos alegres, porque em nossas mãos tem que pousar um título de eleitor, bem maior do que o nosso arco-íris de esperança. Votemos no que pensamos de bom para a nossa gente e para o nosso país. Um sonho diferente dos outros tem que sobreviver forte dentro de nós. Tiremo-lo da gaveta da alma para que, votando com a consciência iluminada, possamos construir um Brasil bem diferente do que eles querem. Um povo alegre como o nosso não poderá jamais ser escravo de nenhum espetáculo de melancolia.

*Publicado originalmente em 04/12/2007

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