Crônicas

Não é Não – ou será que podemos fazer alguma coisa?

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Hoje, coincidentemente dias após eu incluir na minha foto de capa do Facebook uma arte valorizando a campanha “não é não”, aconteceu algo realmente impactante para mim.

A cantada gratuita e a abordagem constrangedora são assuntos do cotidiano delas, mas, para nós homens – alguns casados, pais, tios ou avós – isso parece pouco importar.

Nunca fui indelicado com as mulheres. Nunca mexi com uma delas na rua, nunca nem na presença dos meus amigos para impressionar ou me sentir um ‘pegador’. Respeito ao próximo aprendi desde cedo. Porém, descobri que isso não é tudo. Até há pouco tempo, achava que era vitimização essa história do feminismo politicamente correto. Se há exageros para mostrar o óbvio? É claro que há! No entanto, quem irá atirar a primeira pedra na ideologia – ou sofrimento – dessas mulheres?

Não é preciso ser uma delas, ser militante ou odiar os homens para entender que as coisas precisam urgentemente de mudanças. E nunca é tarde para tanto.

Pois bem, voltando ao ocorrido de hoje: num cruzamento de uma das principais avenidas do Rio de Janeiro, enquanto aguardava o sinal verde para pedestres, fiquei um leve tempo observando uma cena que aos poucos foi tomando conta de mim.

Duas moças exibiam cartazes no sinal. Cartazes que anunciavam um empreendimento de alto luxo na Barra da Tijuca. Ganhando sei lá quanto, elas sabem que os imóveis que oferecem jamais serão seus ou serão suas moradias, a não ser como uma babá ou empregada doméstica. É duro, mas é a realidade.

Só que, honestamente, elas também não ligam pra isso. Sei disso porque enquanto as observava, pude ver a agonia que era aquilo. São menos de 60 segundos de um sinal vermelho para mostrar o que vendem. Normalmente são jovens, muitas em idade escolar, que trabalham no sol escaldando ou chuva para ganhar uma ninharia. Estão quase sempre acompanhadas de longe por um adulto, mas apenas para cuidar que elas não ‘morceguem’ ou queira tirar uns instantes para descansar as pernas, a dureza é que nunca estão lá para protegê-las.

Foi então que um Mercedes Benz prata parou perto de uma delas, a elogiou e disse mais alguma coisa que não entendi. Uma garota negra e outra branca. A investida foi para a negra, que apenas riu um riso pequeno. Eu percebi que isso a incomodou, mas ela continuou exibindo o cartaz de um apartamento caro como se aquilo – a cantada – fosse a coisa mais natural do mundo, e ela, como uma guerreira, disfarçava seus medos com muita elegância.

Naquele instante, algo me disse que o carro iria voltar, Não sei se foi intuição, mas resolvi aguardar o próximo sinal fechar. Esperei.

Entendi o que o motorista pretendia fazer logo que passou do sinal, porque foi dada a seta para, provavelmente, contornar no próximo retorno. Não demorou e o Mercedes prata novamente parou no sinal onde estávamos. Olhei para dentro do carro e o vi.

O coroa com cara de avô. Cara de safado metido a garanhão.

Uma nova investida foi feita. Desta vez, eu pude ouvir. Ele ofereceu o dobro do que a garota estava ganhando no dia para entrar no carro e ficar algumas horas longe dali.

Até então, eu era um observador – ou um jornalista que queria contar uma história. Pensei numa frase que sempre me acompanhou: “a vida é muita curta para sermos apenas um expectador dela”. Resolvi agir.

A menina, nitidamente constrangida, pediu pra ele parar. Mas uma vez lembrei do “não é não” e do “Comprometa-se!”. Dei dois passos em sua direção, segurei o volante do carro com uma mão e a lapela do seu terno escuro com a outra. Ele se assustou.

Poderia ter dado uma surra naquele velho, xingado ou dado uns conselhos. Não fiz nada disso, porque o covarde não pretendia ficar mais ali.

Ele saiu em alta velocidade, não esperando o sinal abrir. Elas vieram ao meu encontro, com olhares de gratidão, feitos descargas elétricas de emoções. Uma delas, a negra, chorou copiosamente sobre o meu ombro. Confesso que não esperava e não soube o que fazer naquele momento. Sai dali com uma certeza e uma esperança que dias melhores virão.

É possível que esse relato não tenha efeito sobre você como teve em mim, entretanto, jamais serei o mesmo a partir de hoje.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

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