Crônicas

Não sou velho o suficiente

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Não sou velho o suficiente para derramar o suco sobre a mesa, fazer xixi nas calças ou esquecer-me de fechar o zíper, mas quando essa minha hora chegar, por favor, não esqueça que já foi criança um dia e que o ensinei a fazer todas essas coisas, com paciência e cuidado.

Não sou velho o suficiente para ficar falando sozinho, repetir dezenas de vezes as mesmas perguntas ou cutucar seus ombros toda vez que estiver conversando animadamente com seus amigos. Você não lembra, mas são incontáveis as vezes que essas cenas se repetiram quando você sequer sabia falar.

Não sou velho o suficiente para ter uma coriza incurável, mas quando isso acontecer, não tenha vergonha se tiver que usar o seu próprio lenço para limpar minhas narinas, pois, você não faz ideia como os meus bolsos eram cheios de guardanapos, lenços e até pedaços de papel higiênico para todas as ocasiões em que você estava gripado.

Não sou velho o suficiente para ter um alzheimer e sair por aí como se nada mais importasse, mas isso já aconteceu na sua juventude, quando se rebelou e ficou meses desaparecido e nos deixou enlouquecidos com a sua ausência.

Não sou velho o suficiente para esquecer-me de enviar uma mensagem ou um telefonema para saber como tem passado e o que tem feito de bom. Quando a velhice encostar suas amarras sobre o meu corpo, filho, não me esqueça. Não fique muito tempo sem enviar um aviso, um telefonema, mesmo que do outro lado esteja um velho senil. Pois, saiba, que a sua voz será um remédio para curar todas as chatices de ser velho.

Não sou velho o suficiente para me recusar a sair à noite ou num domingo de sol e acompanhar as suas loucuras da mocidade. No entanto, quando chegar o dia em que não terei mais pernas para me locomover, será as suas que irão me ajudar a caminhar para o descansa do leito e da sombra.

Não sou velho o suficiente. Mas penso como quem um dia será. E só para explicar, faria tudo que já fiz por você novamente, não como quem quer recompensa, mas como quem já teve a oportunidade de recompensar toda uma vida vivida ao seu lado, tão somente por ter tido o privilégio de vê-lo crescer.

E quando for velho o suficiente para esquecer todo o resto, ainda assim lembrarei-me de você e direi obrigado por tudo.

 

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: