Crônicas

Nascida para ricar (Catarina Cunha)

Joanete veio ao mundo predestinada ao sucesso. Não esse de pobre de Bonsucesso que nasce na merda, trabalha como um jegue para morrer na beira da praia; com a aposentadoria contada para tomar uma água de coco, o remédio para artrite e pressão alta. Decididamente ela seria rica de terras a perder de vista, imóveis, móveis e veículos incontáveis. Teria empregados para tudo, de jardineiro a chapeleiro. Sim, sempre sonhou em ter esse espécime raro de profissional, só para criar os seus chapéus exclusivos e passar na cara das amigas.

Ainda moleca, sem os dentes da frente, mesmo sem ninguém dar-lhe a ideia, divertia a família:

— Joanetinha?

— Não me chame por esse nome de pobre. Prefiro Miss. Joan. Esse maldito “nete” vou retirar quando crescer.

— Mas filhinha é a tradição na família, eu sou Valdenete, sua tia Laudinete, sua avó Aprazanete.

— E meu pai João. Eu não poderia ser Joana? Tinham que ficar criando fusão de gente no cartório? Não importa. Eu serei rica e terei tudo, inclusive um nome decente.

­— E o que a minha belezinha vai fazer para sair do Pé do Canal do Cunha assim, podre de rica?

— Fazer nada. Aqui já é podre, para ser rica é só sair daqui.

— Quero saber qual vai ser sua profissão, sabichona.

— Ué, Rica. Eu hem, mãe, de tanto comer feijão com farinha não sabe mais o que é “rica”. É só ver nas novelas e nos filmes. Aquelas mulheres que acordam maquiadas, penteadas e tomam café-da-manhã com vestido de baile e salto agulha. Os dedos cheios de anéis pinçando a xícara de porcelana com o mindinho esticado. Entendeu?

— Entendi. Agora vai lavar a louça que a riqueza está te esperando lá na pia.

O destino, esse crápula cínico, fez de Joanete uma pobre por excelência. Filha de classe média magra, viúva de operário pobre e mãe de um miserável. Criou o filho para ser herdeiro de uma grande fortuna e colhia seus frutos: um jovem come-e-dorme que não dava nem descarga na bosta que paria, quanto mais lavar um prato. Vivia na praia fazendo o que sabia fazer melhor: nada.

Mrs. Joan, como queria ser conhecida no bairro do Leme, onde jurava ser nascida, criada e amiga íntima de Clarice Lispector, vivia de sua pensão raquítica de viúva arrastando as contas da quitinete no morro do Chapéu Mangueira.

Há vinte anos sentia o bilhete semanal da MEGA SENA formigando. “Agora vai, está demorando um pouco, mas em breve farei minha mega viagem pelo rio Sena. Ah, sempre haverá Paris…Vem MEGA SENA, vem!” – pensava contando as moedas na fila da casa lotérica:

— O próximo! Dona Joana, bom-dia!

— É Joan, Mrs. Joan, meu rapaz.

— Desculpe-me, majestade, Mirsê Joanê. O mesmo joguinho de sempre?

— Provavelmente o último. Semana que vem estarei rica.

— Mas não era semana passada? Eu devo ter me confundido então. Vê lá, hem, não vai esquecer os amigos daqui, né?

—  Vocês nunca mais vão me ver. Só pelos jornais. Nas colunas sociais, claro.

— Claro, Mirsê Joanê, claro.  Até semana que vem, Majestade! O próximo!

Assim como na padaria:

— Dois pães franceses e um brioche.

— Broche tem não Dona Mis, mas no armarinho em frente…

— Para você é Mrs. Joan. Não seja ridícula, menina, me respeite ou eu faço você perder esse empreguinho antes de conseguir esconder esses dentes cariados na boca.

— Ih, Dona, não enricou ainda né? Vige, não vejo a hora de ver a senhora toda produzida na TV… bem longe!

— E eu de nunca mais ver essa sua boca grande.

— Passar bem, Dona Mis, amanhã tem broche. Rsrsrs.

— Mrs. Joan, é Mrs. Joan!

Assim era a vida de Joanete. Embora uma quarentona bela e empertigada, ostentava seu rancor desbotado e bolorento como as roupas e pérolas falsas que comprava à prestação nos brechós. Tratavam-na com o respeito que a idade e a condição exigiam temperado com o escárnio que a soberba indigna implorava.

 

Quando Gardênio, o caixa da casa lotérica, chegou pela manhã e viu o patrão escrever o resultado no quadro, foi incapaz de manter o cigarro pendurado na boca:

— Dona Majestade!

— Que foi Dênio? Já fumou unzinho logo cedo? Já falei que isso dá diferença no caixa, fica viajando e…

— Não, Seu Cheiroso. Tô falando dos números da Mirsê Joanê, a Majestade do Leme.

— Tá de sacanagem que a bruxa escrota ganhou a MEGA SENA?

— Tenho certeza: 03 -12 – 26 – 43 – 55 – 57.

— Caramba, vou convidar a senhora distinta para ser minha sócia. E aquele rabo magro ainda dá um caldo.  Só assim reformo a casa.

— E eu vou ser o Contador de confiança da Rainha Jean.

— Que Contador? Você não tem nem o ensino médio?

— Mas sei contar dinheiro como ninguém.

— Isso é verdade, quando não vem trabalhar com os faróis acesos.

— Nunca fez diferença.  Agora sim, vou chamar a Ritinha da padaria para ser minha secretária, ela adora a Rainha do Leme. Quero ser o primeiro a dar a notícia para minha nova patroa.

— Vai nada. Você vai pro teu caixa que eu tenho muito o que conversar com minha sócia.

Chegando à porta da quitinete,  Seu Cheiroso já encontrou uma fila de amigos e sócios em potencial da nova empreendedora carismática do bairro.  O Seu Manoel do açougue, que queria ver o diabo pelado dançando rumba a ter que atender Joanete no balcão com aquele nariz empinado, era o primeiro da fila, de cabelo penteado e um ramo de cravos comprado às pressas em frente ao cemitério. Ritinha mantinha os dentes guardados e apreensivos enquanto apertava o pacote de brioches. Tocaram companhia, esmurraram a porta, chamaram desesperados: “ Majestade! Majestade!”; e nada. O Zé do Trinco, arrombador profissional, atualmente fazendo biscate de chaveiro, se ofereceu para tentar abrir só no talento. Mas a porta tinha tanta tranca que o jeito foi chamar os bombeiros para arrombar. Uma roda de orações,  organizada às pressas pelo pastor, entulhava a frente do prédio pela saúde de Mrs. Jean, a simpática viúva do 214.

O trânsito na comunidade, já caótico por vocação, parou de vez. A tempestade de verão caiu no mesmo instante em que os vendedores de guarda-chuva, capa e sombrinha tomaram as ruas. Uma ambulância tentava furar o bloqueio até ficar encalhada entre uma carrocinha de churros e uma van pirata atravessada na pista. Os paramédicos seguiram ladeira acima com o pé da coragem, no fundo lamentando não estarem com pés de pato. A mulherada boiando os peitos nas janelas para apreciar a paisagem. “Se bombeiro já é gostoso seco imagina molhado?” Cochichavam aos berros.

— Tem alguém aí? Dona Joanete, aqui é o Corpo de Bombeiros, pode me ouvir? A senhora está ferida? Peço que se afaste da porta, pois nós vamos entrar. Fique calma. A ajuda está chegando.

— Capitão, vai na bota ou no machado?

— No machado que é casa de mulher que deve ter tranca até na privada.

— Peraí, peraí! Pode parar que eu moro aqui. Que é isso, mané? Vai destruir minha porta? Minha mãe deve estar chegando.

— Onde está a tua mãe? Ela não atende a porta.

— Será que ela já chegou? Ou não saiu? Ela estava aqui ontem? Não me lembro da cara dela esta semana. Ih, cara, pergunta difícil volta amanhã.

— Por favor, seja rápido.

— Calma que eu tenho a chave. Que gente estressada. Tá estressado? Vai surfar, correr na praia, fazer caminhada na floresta. Eu conheço uma trilha que dá num visual que é do caralho.

— Cala boca, babaca, e abre logo essa merda!

— Pronto, pronto, fiquem a vontade senhores que eu vou tomar um banho e dormir.

— Onde está sua mãe?

— Sei lá, ela é maluca. Deve estar babando vitrine no shopping.

— Que cheiro de podre é esse?

— Ôi? Desculpa aí, deve ser do hambúrguer de ontem. Ou da  semana passada? Ou do macarrão de copo? Será que sobrou? Hum… Tá batendo uma larica. Afinal, vocês são bombeiros ou da Vigilância Sanitária?

— E por falar nisso, moleque, tem um bilhete colado na geladeira.

“Eu não falei que nasci para ser rica? Adeus, cambada de miseráveis!”

 

 

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

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