Crônicas

Neura Seriado

Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

– O senhor confirma a compra no valor de U$ 3.500,00 na loja Sexy Shop Baby em Nova Iorque?

– Não! Não confirmo! Eu já falei que não fui eu! Nem passaporte eu tenho e minhas milhas não dão direito a tele-transporte.

– Estaremos estornando o valor na próxima fatura.

– E os juros também porque eu não vou pagar essa conta.

– Sim, senhor. Por favor, anote o número do protocolo.

Nossa, que dia! Quem será agora?

– Aaaalô!

– Por que você me mandou este e.mail?

– Como?

– Eu não gosto desse negócio de pornografia infantil. Você está doido ou se fazendo? Ainda por cima para o email do meu trabalho. Tarado! Idiota!

– O que é isso Pedro? Está me estranhando? Eu não te mandei nada e muito menos…

– Olha, eu não quero nem saber. Tire meu nome de sua lista e não me ligue mais ou eu te denuncio.

– Espera um pouco. Não fui eu. Eu jamais…

Pipipipi…

Essa agora. Clonaram meu email também. Vou cancelar essa porcaria agora mesmo. Senha não confere? Caramba! Vou à polícia logo.

– Quero registrar uma queixa: Clonaram meus cartões de crédito e estão usando o meu email para divulgar pornografia infantil.

– O senhor é casado? Tem namorada?

– Não, não.

– O senhor teria emprestado os cartões para algum amigo íntimo?

– Não. E eu não sou gay.

– O senhor sofreu abuso sexual na infância?

– Não! Claro que não! Eu fui roubado! Provavelmente na internet. Sei lá.

– O senhor não se lembra. Então bebe ou usa drogas?

– Drogas? Não. Às vezes bebo.

– Entendi. O senhor deu os cartões e senhas quando estava bêbado.

– Não! Caro inspetor, eu só quero fazer o B.O. Aqui está minha carteira de motorista.

– Senhor, aqui consta que o senhor se envolveu em um acidente hoje pela manhã.

– Impossível. Passei a manhã no telefone bloqueando cartões. O carro ficou na garagem e está lá até agora. Que acidente?

– O seu veículo bateu em um poste na Avenida das Américas e foi abandonado no local.

– Menos mal. Eu tenho seguro.

– Mas tinha dois meninos estrangulados na mala do carro.

– O quê? Roubaram o meu carro para uma desova?

– Aha… O senhor trabalha numa loja de brinquedos…

– Sim. Sou o gerente.

– O senhor parece nervoso…

– ervoso? Eu estou tremendo! Não é todo dia que jogam crianças mortas no meu carro!

– O senhor quer um copo de água?

– Por favor. Obrigada. Ei? Por que você está guardando o copo que usei nesse saco plástico?

– DNA. O senhor está preso para averiguações. Tudo que disser poderá…

Acordou coberto de suor na fria madrugada de maio. Catou o controle remoto entre as cobertas e, antes de desligar a TV, teve uma sensação de estranha: o seriado que dormira assistindo às 22 horas reprisava na madrugada exatamente no ponto em que dormiu.

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

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