Ninguém é perfeito

by Claudia G. R. Valle | 22/10/2017 08:27

Quando eu cursava a universidade tinha um colega muito esquisito. Pertencia a uma turma um pouco mais adiantada do que a minha e, de vez em quando, parávamos para conversar sobre generalidades, um encontro prazeroso. No entanto, havia ocasiões em que nos cruzávamos nos corredores e ele mal me cumprimentava. Em nome dos nossos diálogos agradáveis, eu tentava desculpar aquele comportamento errático: o cara certamente estava apressado, sem tempo para bater papo. Mas, no fundo, achava que ele era mesmo um pouco doido.

Passaram-se meses até o dia em que eu encontrei os dois ao mesmo tempo. Isto é: tratavam-se de dois rapazes que eu julgava serem um só. Um deles realmente me conhecia, mas o outro certamente não tinha a menor ideia de quem eu fosse, e se limitava a responder educadamente ao meu cumprimento. E eles nem se pareciam tanto assim. A louca, no caso, era eu.

Mas não exatamente. Sofro de uma versão leve de prosopagnosia, uma coisa que só recentemente soube que tinha esse nome. E que nome! Até então, eu me considerava apenas má fisionomista. A nova nomenclatura acrescentou charme à minha deficiência, fiquei chique. Tenho a sensação do burguês de Molière, ao descobrir, encantado com o próprio refinamento, que “falava em prosa, e não sabia”.

Reconhecer rostos de pessoas com as quais não tenho convívio constante é um problema. Isso, aliado à minha proverbial, e talvez opcional, falta de memória, me coloca frequentemente em situações incômodas.

Ser apresentada a várias pessoas ao mesmo tempo é caminho aberto para gafes futuras. Posso passar por elas na rua no dia seguinte e não as reconhecer, o que acaba sendo interpretado como antipatia ou pouco caso. Se estiverem usando a mesma roupa do dia anterior, talvez eu me safe. Se o timbre de voz for peculiar, ou se contaram algo marcante, ou se forem figuras bastante exóticas, tenho alguma chance. E elas quase sempre sabem o meu nome, onde me conheceram, quem são os amigos em comum…

Reuniões de grupos mais antigos aos quais pertenço, como ex-colegas de escola, constituem uma incógnita permanente. A maioria sabe quem sou, lembra-se dos ex-professores, traz fotos onde eu não identifico ninguém. Só consigo reconhecer os que me são próximos.

A prosopagnosia obriga a malabarismos sociais que nem sempre dão certo. Parto de um princípio simples: se alguém me cumprimenta, me conhece. Quando não é verdade, faço papel de boba. Às vezes arrisco confessar que não me lembro do nome, embora não me lembre nem do nome, nem da fisionomia. E às vezes mantenho o diálogo até conseguir uma pista de quem se trata. Há oportunidades em que a criatura percebe o truque, e se diverte com a minha aflição. Fazer o quê?

Gente com quem já viajei em excursão, sócios do mesmo clube, companheiros de malhação, amigos de amigos, contatos comerciais: todos me escapam. Paciência. Poderia ser muito pior: existem pessoas totalmente incapazes de reconhecer rostos. E outras que nunca esquecem um rosto. Sinto-me afortunada por não estar em nenhum dos extremos.

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