Crônicas

Niterói – Maria – Urca

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Aparentava chamar-se Rose, mas, como constatei no final de meu percurso a Urca, trazia na certidão de nascimento o substantivo Maria. Naquela manhã, o fluxo da ponte era bom, dizia-me, e, por isso, resolvera seguir de transporte terrestre para Copacabana (sempre se certificava do comportamento da ponte na saída de Alcântara; caso o visor eletrônico dissesse “intenso”, ela seguiria de barca).

Sentara-se na poltrona colada a porta, primeira fileira daquela van, na manhã de sábado, 7 de junho. Desde o momento em que se instalara, não parara de falar, até que, por fim, eu desci em frente ao Canecão. Eis abaixo um relato da conversa que tivemos.

Já trabalhara em lojas de shopping, e o resto de seu curriculum, confesso desconhecer, mas desde o ano passado comprara um bolsa, “dessas de sacoleiro”, e resolvera ganhar a vida com vendas autônomas – no trajeto, conseguira muitos amigos. Há um mês, porém, foi contratada para o posto de caixa numa lanchonete árabe em Copacabana. Folga às segundas-feiras, quando resolve coisas pessoais e as vendas (que não pode parar de fazer pelas relações de amizade que conquistara). Não tem tempo para si mesma, reclama. Fazer as unhas, o cabelo, uma boa depilação? Difícil. Seu expediente vai de 10:30h às 18h e estes são também os horários nos quais se alimenta. Almoça quando chega e janta – quando as sobras são comíveis – ao fechar o caixa. Pega trânsito todo santo dia, revezando-se entre barca cheia e ponte engarrafada. Passa fome toda tarde e diz-me, se continuar assim, não sabe o que acontecerá consigo. Conta-me que o “esposo” (como se refere ao cônjuge) trabalha no restaurante ao lado de seu local de trabalho e que ‘fila’ um ou outro aperitivo quando sente fome. “E olha que lá tem câmera espalhada por todo lado. Já falei que qualquer dia ele vai ser chamado para conversar, e aí, Deus nos livre..”. Discursamos a respeito de sua falta de vitaminas, proteínas e afins, até que a convenci a levar, na bolsa, um biscoito, uma fruta ou um cereal, qualquer coisa que engane o estômago por algumas horas.

Tem medo de barca lotada e não consegue dormir no trajeto para casa. “Presto atenção em tudo” – deve ter repetido esta frase umas nove vezes entre a Perimetral e o Aterro. Quando usa as barcas, distrai-se com as ‘luzinhas vermelhas’ que colorem a Presidente Costa e Silva, alusão ao acionar do freio pelos automóveis enfurecidos com o trânsito paralisado; quando vai pela ponte, conta as embarcações que seguem as ondulações do oceano. “Ontem mesmo, ‘haviam’ 11 barcos lá em baixo. Um deles trazia mais carga do que normalmente traz…”. E dizendo isto, tornou-se pensativa, desaparecendo minutos depois com o carro que a levaria ao seu destino cotidiano.

Maria, casada, por volta dos 34 anos, trabalhadora, brasileira. Dona de muitas histórias, carioca de coração. Espera minha visita no bairro de Copacabana, qualquer dia desses. “O lugar é muito bonitinho; ainda faltam algumas coisas, mas passa sim, ficarei contente”. Fica a indicação de uma nova crônica a ser redigida.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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