Crônicas

No meu quintal descobrindo as almas da árvores

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

por Humberto de Almeida*

“Para ser universal basta cantar o seu quintal (vou cantar o meu).” Leon Tolstoi.

Dizem que o meu gosto pelas árvores é uma herança da minha mãe Dona Chiquinha. Ela, a minha, segundo os irmãos mais velhos, tinha mais cuidado com seu jardim, no todo, do que com as rosas, em particular. Ela nunca esquecia de lhes dar um bom-dia todo maternal nos primeiros raios da manhã. Era bom dia rosas minhas e outro bom dia rosas tuas, um dia serei rosa, e outro Chiquinha serás.

Se eu tenho um pomar no quintal, a minha mãe tinha um jardim na entrada de casa. Mas, por mais que escondesse, todos os filhos sabiam que trazia escondido dentro do peito.  E o mais incrível era que no do peito só plantava rosas.  E todas, contrariando a própria natureza, desprovidas de espinhos. Mas deixando em paz o meu coração e o seu jardim, voltemos ao meu quintal, onde o único galo que nos despertava, todas as manhãs, depois dos muitos cantos que nos encantavam foi cantar/encantar em quintais outros.

Se o moço daquele disco voador que o Raul Seixas, depois de pedir muito, pegou carona e foi morar em outra cidade, aportando em seguida no meu quintal, perceberá de cara a quem pertence o quintal em que está aportando a sua nave.  As minhas acerolas, ainda verdinhas, verdinhas, parecendo uma nota de dólar, vivas como a minha esperança de vê-las maduras um dia, serão as primeiras a desejar-lhe boas-vindas. Podem acreditar.

E o meu cajueiro e eu?  Embora há muito em sua dúvida se merecemos ou não um fruto seu, somente tronco ainda verde a apontar para o céu tem tudo para ser aquele amigo que nos dará os seus frutos sem nos pedir nada em troca.  Ele, o meu cajueiro, ereto como o de Deus naquele quadro em que indica, com esse dedo ereto, o caminho que levarão Adão e Eva para outros paraísos, ou infernos, folhas e galhos abertos, poéticas flores ainda em botão, também dirão que seja bem-vindo.

O meu quintal é um verdadeiro parque de diversões para os pássaros que brincam nos “balanços” das folhas do coqueiro, o único, que vive com os seus cocos secos de tantos olhares. O pomar, mesmo sendo mini, é o máximo como exemplo de que a natureza agradece nos dando, sem nada pedir em trocas, com exceção do carinho dos nossos olhos o cuidado com os olhos de plantas dela (sei do cacófato), uma bela lição de vida.

Eu gosto de árvores. E esse gosto que de início acredito ter vindo de Dona Chiquinha, também, ao lembrar da árvore tombada – as árvores não tem alma?! – também do meu saudoso pai Heráclito de Almeida. Um dia, ainda em sua homenagem, hei de plantar um pé de baraúna, árvore que como poucas, se curva, mas não quebra.

O Compadre Heráclito costumava comparar os “homens de bem e de bom coração” a uma baraúna. Para ele, um “sujeito baraúna”, mais que um bom sujeito, como bom sujeito que ele era, era todo aquele que pudesse nele encontrar um “homem de verdade”. E esse, diferente do “cínico” aquele do Diógenes, seria visto sem a necessidade uma lanterna acessa sob o sol do meio-dia.  Pois bem. As árvores, meus filhos, digo hoje para os filhos meus, se não têm alma, têm muita coisa para lhes dar. Cuidem bem delas, pois, elas, a sua maneira, saberão cuidar bem de vocês.

E o meu quintal? Em agradecimento ao tanto que ele tem dado a este escriba, vou continuar cantando e cantando-lhes as mais bela canções.  Todas feitas de sua matéria, até o dia em que possa nele plantar estrelas, vê-las crescer, dar belos “frutos”, sem nunca me pedir algo em troca.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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