Crônicas

O (a)caso de Mônica

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Simples palavras ao vento, jogadas em tantas direções, embrulhadas em papéis de carta, cartões de diversas cores e gramaturas, escondidas em envelopes (será que os carteiros ainda entregam?!), perfumadas como quem sai para um primeiro encontro. Nossas entranhas são carregadas de significados, nossos estímulos são palavras disfarçadas de sentimentos. “Por onde anda seu frio na barriga”, Mônica se perguntou certo dia, a caminho do ponto. Em um livro, talvez no romance que atualmente embala suas viagens dentro de ônibus executivos. Na espera de uma boa oferta de emprego. No amor… já não acredita nessas bobagens.

O termômetro revela horas que não estão de acordo e a temperatura de um inconcebível 0ºC; o sol está a pino. Suor. Ir ou ficar? Pensa, deixando sua cabeça percorrer as opções para o próximo feriado…

Ipês amarelos e vermelhos salpicam a paisagem primordialmente verde. O cinza asfáltico com duas linhas amarelas regulamenta os fluxos automobilísticos. A vontade é de abraçar essas árvores todas, de guardar cada detalhe na memória para que, em um rompante,  possa soltá-los sob a forma de palavras. Entre o verde tão verde e bois e tantas vacas, um portal cor de tijolo. O sol de inverno rasga o azul margeado de montanhas e a estrada apresenta-se só ternura, pé na estrada, Mônica ao volante, ao lado a ansiedade de voltar para sua terra depois de tantos anos. No céu um avião pincela de branco nuvens que a acompanham…

Uma pomba branca voa baixo e suas asas tocam a perna esquerda de Mônica. Uma sacola faz piruetas no ar e avança em direção à praia. No limite da pavimentação em pedras portuguesas, areia e água. Poderia sentar-se em sua canga auriverde com motivos de Biscoito O Globo – sempre dentro da bolsa – e contemplar o mar. 13h15 da tarde, algumas pessoas pelo calçadão, nenhum sinal de ambulantes ou moleques de rua. As ondas quebram tranquilas e a brisa arrepia sua pele. Fecha os olhos. “Por onde anda seu frio na barriga?”

O ônibus chega. Passa o bilhete único e senta-se logo na frente, não há muitos passageiros. Vasculha o interior da bolsa com a ponta dos dedos e traz à luz Pelo Fundo da Agulha, um comprovante de supermercado como marcador de páginas entre as folhas de número 51 e 52. A claridade ofusca seus olhos impossibilitando a leitura. Fecha o derradeiro volume da trilogia Torres e põe-se a olhar pela vidraça em movimento.

Sua mente vacila entre memórias de infância e personagens da juventude. Chegam os anos da faculdade, os primeiros empregos, as desilusões da vida, as contas a pagar, o pôr do sol que, soturno, desprende-se do tédio. Respira fundo.

“Por onde anda seu frio na barriga?”

Na TV do ônibus passa um trailer de um filme com estreia anunciada para 19 de maio, mas este Mônica já assistiu no cinema. Já é quase setembro, o sol de quase verão em pleno inverno, o Rio que nunca foi tão internacional. As Olimpíadas já passaram, em breve serão os jogos Paralímpicos. A cidade prepara-se para as eleições com santinhos e propagandas no horário nobre da TV, o trânsito está livre, “chegarei a tempo da reunião”, pensa, e a dúvida entre voltar para a serra ou ficar na capital volta a contorcer as emoções de Mônica.

Um senhor de cabelos compridos e olhos verdes aproxima-se, senta-se ao seu lado e desfia sua vida de médico acumpulturista; uma mulher que conheceu na fila do cinema, uma cerveja, uma passada no apartamento dela e 6 anos depois, um filho, que trocou o Brasil pela Alemanha e anda fazendo sucesso como cineasta por lá. Um desastre, o aprender de violão para passar o tempo, as Óperas que agora escreve, as canções que canta e os musicistas, iluminadores, cenógrafos e todos mais com quem criou laços de amizade.

Num assento do outro lado do corredor, uma mulher entra na conversa, dizendo que aos 11 descobriu ter uma prima-irmã de 15, hoje ativista feminista na Argentina.

A viagem segue e mais pessoas se juntam ao colóquio em movimento. A prosa é boa, as histórias das vidas das pessoas são incríveis e a cabeça de Mônica desencana de suas próprias questões; fala sobre o clima, sobre gostar de escrever, de todo tipo de arte. É solteira, está bem assim. Uma senhora pergunta se ela fala espanhol, Mônica faz que sim com a cabeça, a senhora apresenta virtualmente um sobrinho arquiteto no Chile, “partidão, está saindo em todas as revistas por lá”. Uma passageira se levanta, olha para Mônica e diz ter adorado sua saia. Sorriem. Muitos se vão; a viagem continua, ainda faltam alguns quilômetros. Na TV, receitas de doces, seguidas por horóscopos. “Se não há paixão, tudo vira aborrecimento”. Algo na legenda da TV dialoga com seus pensamentos. Telefone toca: Oi, João, sim, estou a caminho, ah, entendi, tudo bem, marcamos outro dia, não, imagina, sem problemas, obrigada, estou à disposição, um beijo, outro para a Desiré, tchau. Reunião cancelada, era a última das opções, contas a pagar, mais uma semana sem nada, o livro continua descansando em seu colo, faz sinal para parar, desce, caminha até uma praça, longe de tudo o que lhe preocupa.

Caminha em meio à nova paisagem, senta-se num banco, à sombra de uma bela árvore. Um rouxinol canta ali perto. O vento traz palavras machadianas: “O acaso… é um Deus e um diabo ao mesmo tempo”. Mônica fecha os olhos, sente o mesmo vento chacoalhar-lhe a face: “Por onde anda seu frio na barriga?”

Tira um papel da bolsa, uma caneta e põe-se a escrever o que lhe dita seu inconsciente. Sente um arrepio percorrer-lhe a espinha e então o seu frio na barriga.

Há muito tempo que as palavras estavam presas em algum lugar dentro de si. Mônica põe-se a libertá-las. Ao fazer isso, sem saber, liberta-se também.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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