Crônicas

O amor, a distância e o tempo

Elano Robeiro
Escrito por Elano Robeiro

“Fui andar pelo jardim do Amor,
e o que vi não era esperado:
Vi uma Capela no lugar
Onde antes eu brincava no gramado…”
(Fui andar pelo jardim do Amor – William Blake)

Não faz muito tempo, tomei conhecimento por intermédio de um amigo, da interessante história de seu tio. Um senhor simples, morador do interior do Rio de Janeiro, que conheceu na década de quarenta uma mulher do estado do Paraná, através de uma espécie de Correio Sentimental, que vinha junto de uma das revistas da época. Esse homem trocou correspondências apaixonadas – cheias de revelações, segredos e desejos – com a tal mulher por cerca de quarenta anos, vindo a falecer em 1980 sem nunca ter conhecido o seu grande amor. – Era assim que ele se referia à “amante” distante. Épocas mais românticas, em que se esperavam semanas pela chagada da tão esperada carta, que vinha quase sempre em papel perfumado. Nesse caso, o amor venceu a distância, ainda que não realizado fisicamente. Mas, e se os dois tivessem tido coragem e oportunidade de largar cada qual sua família, jogar tudo pro ar, e fossem viver juntos? Teriam conseguido superar o tempo e suas armadilhas?

Passamos boa parte de nossas vidas procurando um grande amor. Aquele que nos fará feliz e nos completará plenamente. Sonhamos com alguém que goste das mesmas coisas que gostamos, que tenha sempre um sorriso estampado no rosto, que não acorde de mau humor e esteja o tempo todo atento aos nossos desejos. Essa outra pessoa sem defeitos, idealizada por nós, com certeza não existe. Mas mesmo assim, num determinado momento, vamos encontrar alguém que colocará um brilho diferente em nossos olhos e, cheios de convicção, diremos: – eu te amo.

Aí vem a convivência diária e a percepção de que há do outro lado um alguém com vontade própria e que, certamente, também espera que sejamos perfeitos. No jardim do amor, que imaginávamos apenas existirem flores, há também diversos tipos de espinhos. Naturalmente surgirão os conflitos, as acusações, as cobranças. – E que bom que é assim. Já imaginaram como seria chata uma relação em que houvesse concordância em tudo? – A maioria dos casais irá, através do diálogo, superar esses obstáculos, essas discordâncias. Porém, o dia-a-dia de uma relação não é uma coisa fácil, e para alguns, o tempo se tornará um inimigo cruel, tornando o convívio desgastante e insuportável, levando o casal ao extremo, ou seja, a separação.

Provavelmente, ansiando por mais individualidade e fugindo de uma possível rotina, vem crescendo a cada ano um novo tipo de união, em que duas pessoas se assumem como casal, mas optam por viver em casas separadas. Talvez alguns encarem essa atitude como a única alternativa capaz de salvar uma relação em que ainda existe amor, mas já não há a mesma sintonia, tolerância e compreensão de antes. O tempo mostra suas terríveis garras e tudo passa a ser motivo para uma explosão de desentendimentos, mesmo quando os tais motivos parecem ser extremamente banais: o sapato esquecido no meio da sala, a tolha molhada em cima da cama, a música alta demais, o ronco desagradável, e por aí vai.

Não acredito, e nem acho que existam receitas prontas para se viver um grande amor. Quando escolhemos alguém para ficar ao nosso lado, não podemos esperar que ele ou ela venha acompanhado de uma bula contendo a indicação dos efeitos colaterais do casamento. Se a união será um “até que a morte nos separe”, se faremos bodas de ouro ou, “morreremos na praia” após atravessarmos um oceano de ilusões e expectativas, isso ninguém sabe. Mas, independente de todas as incertezas, dificuldades, de se estar perto ou longe, o importante é não deixarmos de acreditar e buscar a cada dia, esse que é o mais nobre dos sentimentos e, como costumo dizer, o maior de todos os Deuses: o amor.

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Sobre o Autor

Elano Robeiro

Elano Robeiro

Escritor, autor de contos e poesias.

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