Crônicas

O aviãozinho

Sérgio Sayeg
Escrito por Sérgio Sayeg

Essa crônica a jato é para homenagear o aviãozinho do ‘plano de voo’ que apresenta esquematicamente, durante as maçantes e intermináveis viagens aéreas, um rosário de informações como velocidade, altitude, distâncias etc.

Doce alegria acompanhar as peripécias e travessuras daquele tosco modelinho, que protagoniza um enredo arrastado, em meio a um cenário de mapas e números. Entretém-me por horas, mostrando, orgulhoso, suas conquistas e façanhas.

O aviãozinho procura disfarçar sua tristeza ante a in­diferença solene dos passageiros, principalmente a de crianças desinfantilizadas, sedentas por ingressar rápido no mundo de responsabilidades, hipocrisia, corrupção e bebidas.

Desdobra-se a navezinha em cumprir seu papel de impressionar os espectadores sobre quantas milhas percorreu, quão alto consegue subir e quanto frio consegue enfrentar.

Mas imagino que a frieza atroz que o martiriza provém do desprezo das pessoas que, por não saberem mais brincar, não dão a devida atenção ao irrequieto entusiasmo infantil daquele “patético” figurante, largado à infindável chatice de dados aeronáuticos.

Encena seu papel briosamente, como o de um palhaço sem graça que dá toda sua energia tentando erguer o ânimo da desatenta plateia, entre dois números de malabarismo. O audaz aviãozinho não se entrega ao desalento.

Quadro a quadro, fico esperando ansioso rolar a sequência completa de informações inúteis para vê-lo ressurgir altaneiro e peralta na tela anunciando quantos quilômetros conseguiu galgar na rodada, reduzindo bravamente o incômodo pela penosa espera.

O coitadinho nunca deixa a bola cair, sempre atualizando os dados, até o aguardado fim da viagem, quando a apresentação da peça chega melancólica ao seu desfecho.

Todos abandonam, sem saudade, seus assentos na plateia e deixam a adormecida aeronave aos atropelos, de volta ao seu habitat, no solo.

As cortinas nem chegam a se fechar. Sem que se aperceba, a projeção simplesmente se interrompe. Ninguém pede bis. Fico ali, absorto, esperando em vão meu ídolo voltar ao palco para agradecer. As luzes da tela abruptamente se apagam e o palhacinho é arrancado de cena.

A expressão ‘plano de voo’, conferida ao ‘enredo’ apresentado durante a viagem parece querer suprimir a candura intrínseca àquele objetinho inocente, inserindo-o no universo gráfico corporativo e otimizador dos executivos.

Ao invés de um plano cartesiano contendo uma de­monstração cartográfica elaborada por experts em aviação comercial, vejo na projeção apenas um aviãozinho bonitinho galgar solto o espaço.

Com desenvoltura, lá vai ele, altivo, atravessando a floresta amazônica com o mesmo ímpeto com que cruza oceanos, desertos, cordilheiras, planícies, civilizações. Imbatível explorador, dentro de um universo mágico, rumo ao ponto de chegada, talvez a Terra do Nunca.

Se os administradores das companhias de aviação soubessem dessa concepção ‘gaiata’ de imediato seria o aviãozinho com toda sua parafernália proscrito da tela e substituído por gráficos de desempenho de commoditties, diagramas de evolução das bolsas asiáticas ou por uma figura mais inumana dotada de merchandising aéreo, sendo remodelado por um design arrojado, retilíneo e futurista.

Até lá, enquanto concepções inocentes subsistem à margem do sistema, terei direito de conservar, a dez mil metros do chão, minha imaginação nas nuvens.

A cada girada, novos números: velocidade, altitude, temperatura, distância, horário, quilômetros, milhas, pés, graus Celsius, Farenheit e um punhado aleatório de cidades de relevâncias distintas que parecem estar umas sobre as ou­tras num mapa rudimentar e impreciso, onde Belo Horizonte fica ao lado de Aracaju e Miami é subúrbio de Nova York.

Quem vê aquela figurinha dócil, mal consegue relacioná-lo ao monstro metálico dotado de avançados recursos tecnológicos, em que respeitosamente adentráramos, intimidados ante sua imponência técnica e cujo interior inóspito e claustrofóbico mostrara um movimento frenético de pessoas abrindo desajeitadamente compartimentos, guardando febrilmente valises e trocando sorrisos forçados de apreensão e cumplicidade.

Passageiros apressados e sisudos, querendo cumprir suas inexoráveis jornadas para dar célere continuidade a suas vidas insípidas, fechar negócios oblíquos, transportar muambas, visitar lojas de grifes, postar selfies com célebres monumentos ao fundo, visitar corredores de museus cujas valiosas obras de arte permanecerão no esquecimento. Um vai e vem repetitivo e improfícuo.

E o aviãozinho da tela alça voo sobrepondo-se a esse sem sentido mundo dos homens a que tenazmente serve.

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Sobre o Autor

Sérgio Sayeg

Sérgio Sayeg

Brasileiro, 64, economista formado pela USP, ex-professor universitário, ex-proprietário de loja de discos raros e escritor. Escreveu o livro de Crônicas O QUE DE MIM SOU EU pela editora Scortecci em 2012. Páginas no facebook: O QUE DE MIM SOU EU em que publica crônicas; CONTRO-VERSOS com mini poesias provocativas; OBRAS PRIMAS DA MÚSICA BRASILEIRA NÃO DEVIDAMENTE RECONHECIDAS com matérias sobre álbuns de MPB que não tiveram a merecida repercussão na mídia.

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