Crônicas

O Azul Flor de Milho dos meus céus

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

O azul flor de milho do céu (cujo código hexadecimal #6495ED traz 39.22% vermelho, 58.43% verde e 92.94% azul) compunha, junto à paisagem de natureza e construção – ou somente construção, se nos atermos ao fato de ser um aterro o vislumbre emoldurado pelas janelas – o impeditivo de cerrar as pálpebras. Uma ode ao far niente, uma respiração prolongada na rotina corriqueira; um “quê” de perfeição que me vinha doce e sorridente à retina e ao coração, de domingo a domingo, por uma pechincha: o preço de um aluguel mais condomínio, IPTU e taxas na Zona Sul do Rio de Janeiro. Era fins de março quando escorreram as primeiras lágrimas; o filme na Polaroid – guardado para momentos especialíssimos por demasiado tempo – queimara de tal forma o quadrado dedicado às futuras fotos que seria impossível imortalizar um dos últimos fins de tarde alaranjados de início de outono. Iam-se meus derradeiros fins e começos de dias, as madrugadas regadas ao burburinho dos bares e jovens e músicas que enchiam a casa e o saco. Em fins de março tudo tornou-se saudade precoce. Eu já não vivia os dias: revivia-os tal qual um filme ou canção prediletos que assistimos ou ouvimos e cantamos junto muitas e muitas vezes seguidas.

Mudança é bom, mas traz seu lado ruim. Ela pesa. Pesa pelas caixas de papelão entulhadas de lembranças e utilidades domésticas, que tem de ser arrastadas pelos cômodos até o dia “D”. Pesa pela preocupação que não sai da cabeça, as contas a serem pagas e canceladas, os contratos que se vão e os que se anunciam. Mobiliários indesejados e novos sonhos de consumo. Pesa no coração deixar para trás um tempo, quando este lhe é muito querido.

A pintura desbotada ganhava vida a cada nova pincelada. Meu olhar marejado vagava entre barquinhos, pneus, folhagens, o mar, a outra cidade ao fundo. Eu não sei desapegar facilmente. Não sei deixar. Mas é preciso.

O lado bom é a parte de você que obrigatoriamente se renova. Você sai da sua zona de conforto – diga-se lá para uma zona mais confortável ainda, por ventura -, joga fora tudo o que lhe é inútil. Limpa a alma e repensa a vida. Mudança é um estado de atitude. Devia ser obrigatória na vida das pessoas, assim como a troca de estações do ano é obrigatória à vida na Terra. Mudança faz bem. E me deixou mais leve.

Nessa balança constante entre pesar e leveza por três semanas, eu, no primeiro semestre de meus 28 anos, quase sofri um infarto. Fui obrigada a não carregar pesos, tomar remédios e descansar – coisa que detesto, mas confesso; precisava.

E eis que ao descansar os olhos e a alma, a Lua me apareceu em sua plenitude. Ainda que as preocupações permanecessem, tudo foi ficando novo, ficando lindo, convidativo e deslumbrante. Problemas elétricos, hidráulicos, de internet e televisão apareceram, mas logo eu dormia, efeito dos remédios. Ao acordar, alguém já estava resolvendo. E então me despedi da vista mais incrível e amiga que tive por mais de 6 anos. Foi com lágrimas, saudades e felicidade por ter sido meu aquele cantinho de poucos sortudos. Eu me tornei também parte dele, para sempre.

Com sentimentos controversos porém confiante,  adentrei minha nova rua, a pouca distância dali. Da janela, agora, só se veem outras janelas e copas de árvores. É sossegado, em meio a um bairro que nunca dorme. Sou uma nova sombra em movimento por detrás de vidros opacos, que escondem-se de uma árvore repleta de frutos-pássaros brancos, tantos e de tal forma organizados que mais se parecem com obra de algum artista, uma instalação em meio à cidade. E Micos. Micos de picadeiro que se apresentam de galho em galho, na tentativa disfarçada de entrar nos lares a procura de frutas. Muitos cachorros circulam saltitantes em suas coleiras pelas calçadas. Ainda rugem os pneus, os percebo de dentro do quarto.

O azul flor de milho do céu agora é o eixo principal de uma tela modernista com formas geométricas bem definidas. É construção, apenas, e começo a me apegar. Percebo, precocemente que, novamente, não saberei desapegar.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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