Crônicas

O Chippendale era o Chico Panela de Dona Chiquinha!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Outro dia, morando ainda no bairro de Jaguaribe, esse em que o saudoso Livardo Alves, aquele mesmo da Marcha da Cueca, diz com precisão que “ali foi xerife e foi herói” em sua balada a la Bob Nelson, Dona Chiquinha, essa que os dois leitores meus há muito sabem que é a minha mãe, chegou em casa dizendo que trocou um biongo em um móvel “Chico panela”.

O biongo, como já falei nesse espaço internético, somente viria a saber anos mais tarde, lendo os Sertões do Euclides da Cunha, que significava Boteco. Mas, calma com andor que o santo quer curtir a paisagem! O biongo do qual falava a minha mãe, como também expliquei, nada tinha a ver com boteco ou coisa parecida. Usando um vocabulário próprio, biongo para ela era a mesma coisa que biombo. Tá explicado. Mas o que viria ser um móvel “Chico panela”?

O móvel, como disse assim que entrara em casa, só chegaria à tarde, pois, a mulher – uma conhecida apenas – que havia feito a troca com ela, pediu um tempo para tirar os “troços” de dentro. Disse esse “troços” aí com a maior naturalidade do mundo. Os troços, imaginei, deviam ser xícaras, pires, pratos, talheres, canecos… Não sei por que nem me perguntem. Mas achava que era isso.

Um móvel “Chico panela”! E quem danado era Chico Panela? Pensei assim, nesse instante, com as iniciais maiúsculas. Era a primeira vez que ouvia falar nesse tipo de móvel. Fui mais adiante por que, não suportando o nó da curiosidade na garganta, perguntei-lhe como era esse móvel.

– Ora, menino, respondeu a minha mãe, é um móvel antigo e muito bonito.

E nada mais disse.

Bom, pelo menos eu sabia que um “Chico panela” era um móvel antigo e bonito. Imaginava então uma panela toda enfeitada, envernizada, polida e, quem sabe, cravejada de pequenos entalhes de coloridos azulejos portugueses! Mas e o Chico? Seria o dono da fábrica? Uma marca registrada do inventor desse tipo de panela? Ela não sabia. Nem eu.

Até que um dia, às vésperas de servir ao exército para concluir mais tarde que ele pouco ou nada me servira, folheando por acaso um livro sobre a história da arte e outras histórias, a gravura de um móvel antigo – uma cadeira! – chamou a minha a atenção. Lembro-me bem. Era uma mistura do estilo rococó, clássico e gótico. Na verdade, mais gótico. E embaixo, em letras claras, a observação: mobiliário Chippendale! E logo em seguida vinha a biografia de Thomas Chippendale, um sujeito nascido em Yorkshire, que herdou do pai a arte da marcenaria.

Pronto! Estava desvendado o mistério! O móvel estilo “Chico panela” da minha mãe, um estilo somente dela, era na verdade um Chippendale, que em sua inocência e pureza, adaptando-o a sua língua que hoje é a minha, batizara de “Chico panela”! No entanto, por incrível que possa parecer, politizado, leitor assíduo dos Caldas e Aurélio da vida, sempre acharei o “Chico panela” da minha mãe mais bonito que todos os Chippendale do mundo!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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