Crônicas

O dia em que João Heráclito deixou o Mar para Virar Estrela!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

A sua crença em Deus era inabalável. Não adiantava. Todo domingo, manhãzinha logo cedo, ele estava ali, sentado no mesmo lugar, quase sempre, respondendo presente na missa de sua – era como se dele fosse – Igreja do Rosário, a maior referência religiosa do nosso bairro Jaguaribe.

Vestia a sua melhor roupa, barbeava-se, escolhia o sapato mais limpinho, engraxado que fora por ele dias antes, dava uma caprichada no cabelo que nunca deixara ser visto em sua cor natural, branca, aos quase 80 anos, e seguia sereno para se remir de pecados que não cometia.

Era um puro. Nunca ouvia nem contava piadas – embora não fosse costumeiro nesse campo – que “brincassem” com Deus e afins. Se tinha a cara fechada, como costumava de dizer, mais fechada ainda ela ficava nesses momentos. Brincar com “coisas de Deus” nem pensar, com Deus não se brinca, dizia.

A sua casa continua lá, numa vilazinha do bairro de onde nunca saiu, agora dando morada a um dos três filhos que deixou morando nesta cidade onde morou por – exatamente – 80 anos e 06 meses. Nenhum, porém, como fazia questão de dizer, capaz de guardar a “herança” que herdara e honrou do seu velho e admirado pai.

A sua admiração pelo pai era tanta que dele herdou o nome primeiro, Heráclito, adicionando-o ao nome próprio para nunca mais dele se separar. Era assim como dois irmãos siameses. João Heráclito. João e Heráclito. O João era o ping e Heráclito o pong. O pai, assim como hoje ainda continua sendo para os filhos que moram por aqui, seus irmãos, era o seu herói.

– “Han, han, han – a repetição desse “han” era marca nas suas longas conversas sempre longas -, tu precisava ver como pai agia em momentos assim!”

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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