Crônicas

O dia em que Livardo Alves trocou de roupas e foi morar noutra cidade

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

O Hoje, meio triste e não me perguntem o porquê, se não despertei de sonhos intranqüilo como o Gregor Samsa, pois, durmo muito bem, graças a Deus, lembrei de um velho amigo. Um amigo muito mais velho que este velho amigo seu. Lembrei, assim, devagarzinho, saboreando cada lembrança, como se estivesse passando a língua o melhor dos sorvetes de coco.

A lembrança veio em gotas, pingos de sorvete, agora, de maracujá, sob a boca ávida no sol do meio-dia. Era como se estivéssemos em mais uma de nossas noites boêmias, no Bar do Grego, que também se foi, tomando cerveja com tira-gosto de língua de boi ao molho, e pão fresquinho, fresquinho. Uma gostosa iguaria, a língua, infelizmente, desconhecida por muitos, que comprava, todas as sextas-feiras, na padaria Fluminense. Sabia que ele estava doente. Andava mal das pernas, como me dissera inúmeras vezes no Ponto de Cem Réis, o nosso calçadão, a boca maldita da Província das Acácias.

– O que estás sentido? “Bicho!

– É dor, cara, uma dor do caralho (sic)! Dói pra caralho (sic) quando vou urinar! Por isso faço tudo para evitar. Mas quando chega a vontade e tenho que ir, é dor, cara, muita dor!

Mas que eu não fizesse daquele desabafo, entre os poucos que fizera em vida, um “cavalo de batalha”. Estava se tratando com um amigo e tudo ia bem.

Nem tudo ia bem. Soube numa sexta-feira, no seu “escritório”, como costumava chamar o nosso Ponto de Cem Réis – “Humberto, cara, quero falar contigo. Onde? Aqui, cara, no meu escritório!” -, ao chegar para a tradicional cerveja com a língua de boi ao molho que vocês já conhecem, o boi, não, a língua, e não o encontrei.

– Cadê o nosso último boêmio?

– Bicho, deu zebra, ele está no hospital. E parece que a coisa é séria.

Respondera-me, Paulo, um razoável médico, bom papo, e companheiro, também, de copo e língua de boi. No outro dia, fui visitá-lo.

O meu amigo estava mais magro do que nunca. Somente olhos. E o rosto, mais magro ainda, se perdia na vasta cabeleira. A voz, porém, a voz rouca de locutor de rádio, como fora por um bom tempo da nossa Rádio Tabajara, desgastada pelas noites de muito fumo e cerveja, continuava a mesma.

– E aí, cara, como está a barra?

Respondeu que estava melhor. As dores na “hora de fazer xixi” – sorriu – passaram. Na próxima semana – era sábado – estaria de alta. Tudo bem. Virei te apanhar. Legal. Na saída não se esqueceu de pedir que não me preocupasse com ele. Iria ficar bom. Passara por muitas e, dessa, também passaria.

Sentia que estava chegando o dia do meu amigo trocar de roupa e se mudar para noutra cidade. A enfermeira, uma magra com olhos de fome, por ordens médicas, lhe proibira de fumar.

– Ora, bicho, por que deixar de fazer o que eu gosto?

E não deixou.

Tanto que um dia, depois de implorar para que a enfermeira tirasse o soro do seu braço direito, passasse para o esquerdo, e assim pudesse melhor degustar o seu cigarro, protagonizou uma das cenas mais tristes desse sujeito que era somente alegria.

Numa visita inesperada, a cena triste. Foi flagrado nu, sangrando “por baixo”, como costumava dizer, pois, a doença que muitos ainda não ousam dizer o seu nome, atacou-lhe a próstata com a fome de anteontem, um frasco de soro pendurado num braço e, no outro, o sangue que tomava, agulha fora da veia, deixando no piso branco do corredor uma linha vermelha de alerta. Era a hora de parar. Mas ele não parou.

Na segunda-feira, se a memória não me prega mais uma, estava de alta. Fui apanhá-lo no apartamento. Estava fraco. Fraquíssimo. Ofereci-lhe o apoio do ombro amigo, mas ele não aceitou. Estou bem. Dissera. Não estava. E antes de entrar no carro, fez questão de falar com o médico, amigo e também do ramo. Um músico. Ou quase isso. O conhecia de longas datas. Suspenda o cigarro, aconselhou-o na saída. E não esqueça os remédios. Cuide de se alimentar.

Tudo debalde. Continuou fumando. Fazia mais. “Esquecia” os remédios prescritos pelo amigo e médico. No seu caso, médico e amigo. Amassava as caixas, com o medicamento dentro, e as atirava debaixo da cama. Ou, disfarçadamente, levava-as para o vaso sanitário. E haja descarga. Também continuou comendo e bebendo, faminto e sedento como nunca. Língua de boi ao molho, para o faminto, e muita cerveja para o sedento.

A última vez que o encontrara no seu “escritório” era somente sofrimento. Quase não andava.

– Ah, meu amigo, a única coisa que eu desejo nessa vida é encontrar um remédio que acabe com essa dor!

Nem a morfina estava dando mais resultado. Em seguida, o encontrando no mesmo estado, lhe pedi que se cuidasse mais, voltasse, imediatamente, ao Hospital Samaritano.

– Não te preocupas comigo, não, meu irmão Humberto de Almeida (chamava-me assim, por inteiro)! A dor vai passar!

A dor não passou. Aumentou tanto que o deixou, finalmente, insensível ao maldito. E o câncer, pouco a pouco, acabou cansando o meu amigo.

Até que um dia, quando voltávamos de mais um dia de praia e sol, por uma daquelas coincidências que não consigo encontrar uma explicação, passando pela Avenida Pedro II, a companheira ao lado perguntou se não íamos visitar o nosso amigo. Não. Fui rápido. Não queria vê-lo naquele estado. Ela insistiu, e recebeu outro não.

E não o veria. Ao chegar ao bairro de Mangabeira, a vizinha, Marlene, foi nos receber com a notícia.

– Olha, 1 Berto, atenderam esse orelhão aí e deixara um recado. Pediram para lhe avisar que um grande amigo seu, um irmão, acabou de falecer.

Era 16 de março de 2002. Livardo Alves da Costa, o Livardo Alves, filho de Dona Júlia e Cacheado, aos 66 asnos de idade e muita folia, acabara de trocar de roupa. Eu mato, eu mato… O meu amigo não mataria mais. Morreu o meu amigo.

Vez por outra, passando pelo quartinho onde ficava o Bar do Grego, lembro de sua partida, e vejo com esses olhos que tantas coisas já comeram antes que a terra os coma, a imagem do amigo e quase irmão Livardo Alves sorrindo e contando histórias. Fazendo a cabeça. Só que dessa vez de cerveja com tira-gosto de língua de boi.

A terra, com certeza, sendo o nosso maior carnavalesco, foi só confetes e serpentinas…

*Abaixo, acesse duas crônicas de Humberto de Almeida sobre o poeta Livardo Alves:
(1)“Livardo Alves é Homenageado com Estátua em Bronze no Escritório Onde Fazia Ponto”
(2)“Livardo Alves, agora morando noutro “país”, continua de lá vendo tudo”

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: