Crônicas

O dia em que o rei Pelé foi o bobo da corte na Parahyba

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Eu ainda era um esboço daquele menino de pernas finas e calça curta, sonhando com uma bicicleta e um sapato Conga. Estão lembrados? A bicicleta do sonho era uma Monark. O sapato? Conga. Mas, sem muita exigência, meu pai sabia que qualquer uma das escolhas que caísse na rede dormiria comigo. O desejo abria mão das marcas. Um menino em cima de um belo par de Congas, montado numa bicicleta Monark! Convenhamos: seria demais!

O estádio Olímpico, batizado oficialmente de José Américo de Almeida, construído em um bairro onde alguns “gatos pingados” começavam a chegar, parecia uma ilha esportiva cercada de silêncio por todos os lados. Foi justamente ali, no ano de 1969, que vi bem de pertinho, graças a “influência” do meu velho pai Compadre Heráclito, o genial Pelé em campo e o idiota Edson Arantes do Nascimento no vestiário.!

O “Santos de Pelé”, como esse belo time era conhecido por aqui e em alhures, veio para levar o ponteiro Ferreira, ponta-esquerda descoberto na equipe de A União, um timezinho do Jornal do Governo que tinha – tem ainda – o mesmo nome. Cícero Ferreira da Silva, o Ferreira, como ficou conhecido no meio futebolístico, era um craque que por força do seu futebol e proteção do “Rei” levaram o Edu, um dos maiores dribladores desse verde-amarelo país do futebol, a procurar outra posição.!

Naquele dia, o milésimo gol do genial Pelé, personagem criado pelo idiota Edson Arantes, só não aconteceu pela maior palhaçada futebolística que esses olhos de Arquibaldo já viram. O Santos venceu ao Botafogo paraibano pelo placar de 3 a 0. O placar, na verdade, era o que menos importava. O povão queria porque queria era assistir ao o milésimo gol do “Rei”, tendo como palco o nosso histórico estádio Olímpico, ou como queiram José Américo de Almeida. A Paraíba, se o milésimo gol tivesse sido feito nesse dia, era o que se ouvia em toda esquina, entraria para a história para nunca mais sair. A história, porém, não mencionava que o estádio seria tombado, Pelé ganharia uma estátua de corpo inteiro, e mundo veneraria o José Américo de Almeida mais que o Louvre da Monalisa e outras companhias menos famosas!

A Paraíba por sua vez venderia aos pouquinhos cada muda de grama do campo – como um dia fizeram com o Muro de Berlim – onde ele pisou. E ficaria tão rica quanto o mais rico dos países nórdicos. O “sonho”, porém, não se tornaria uma realidade. Pois, assim que o idiota do Edson permitiu que o genial Pelé marcasse o seu 999º gol, o inesperado fez a sua surpresa. Jair Estevão, aposentado hoje como Policial Rodoviário, era o goleiro do Santos (não era Agustín Mario, o Cejas, como muitos pensam ainda), naquele dia inesquecível 14 de novembro de 1969.!

E ainda hoje, sorridente, zombando dos parahybanos que sonhavam esse sonho (legal, 1berto!) descrito no parágrafo aí de cima, costuma recordar que assim que Pelé fez o gol de número 999, foi obrigado a se “contundir”. E o que aconteceria? Todos sabem da história: Pelé iria para o gol.!

Ninguém desconfiava que havia um ás na manga que alguns poucos paraibanos ilustres, esse que antes da partida só não deram as suas mulheres para o negão porque ele besta que sempre fora recusaria, não conheciam: o Santos entraria em campo sem um goleiro reserva! Tudo bolado pelo Júlio Mazzei – preparador físico de Pelé -, porque ninguém do Santos queria que o milésimo gol de Pelé saísse na Paraíba, mas no Maracanã.!

Lembro-me que naquele ano, um ano antes da consagração no México do genial Pelé, este escriba ainda era um Beto menino que não sabia nada de batucada e ser o bom da molecada não queria. Apenas bater bola. E nada sabia daquele craque de bola que carregava consigo um cidadão idiotizado chamado Edson Arantes do Nascimento. Bons tempos aqueles, hein?! O menino-jaguaribe tirava de letra a pelada com bola de meia e ouvia o Sérgio Ricardo!

E assim Pelé na condição de mais um pau-mandado, obedecendo ao que fora premeditado somente faria o milésimo gol, esse que para este escriba não teve mais importância que o gol por ele marcado – sem querer! – no campo da Vila dos Motoristas do seu bairro de Jaguaribe, contra o goleiro do Vasco da Gama, Andrada, esse verdadeiro, nesse mesmo ano, no Maracanã. O jogo? Todos sabem: 2 x 1 para o Santos, com um gol de pênalti do genial Pelé. Dessa vez o idiota do Edson Arantes não teve forças para impedir que o Pelé mandasse, ou melhor, fosse mandado.!

Lembro-me ainda, antes da partida, o Edson falando por Pelé – esse mesmo idiota que ousou dizer um dia que eu não sabia votar -, que desejaria deixar o mais rápido “esse quintal” que se dependesse dele nunca pisaria. O “quintal” a que ele se referia era a minha doce e querida e amada Parahyba. Pois é. Juro que ouvi com esses ouvidos acostumados com a música e a voz de Gil de Rosa, parceiro poeta e excelente compositor, sintonizado com o nosso tempo.!

Em tempo: Nenhuma dúvida hoje eu tenho. Pelé deveria ter pendurado a língua no mesmo dia em que pendurou as chuteiras. Assim, o craque e “rei do futebol” seria muito mais eterno (sic).

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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