Crônicas

O estilo era o salário de Barreto Neto

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Há muito que este escriba perguntava sobre o porquê de ninguém ainda ter prestado uma justa homenagem a esse sujeito que ensinou, embora muitos não tenham aprendido, tanta a gente a escrever, e fez com que o admirássemos pelo bom caráter que fora em sua breve passagem por aqui. Escrevendo simples, como simples fora em vida, Barreto transformava as coisas mais difíceis, nas mais fáceis desta vida Severina.

Era a simplicidade, o trocar em miúdos, todos inteligíveis, sem aquele ar enfadonho e chato, metido a erudito, característico de alguns de nossos “cultos” escrevinhadores de plantão, que fazia deste escriba um admirador confesso do excelente jornalista e bom sujeito como poucos que conheço.

Barretinho, como carinhosamente era chamado pelos mais próximos, agora, sem o peso da roupa de carne e osso, era dono do mais limpo e correto texto jornalístico da Província das Acácias. Lembro as vezes que me flagrei, brincadeira entre mestre e aluno, procurando uma palavra que melhor substituísse aquela usada por ele em um de seus intocáveis artigos. Mas tudo debalde. Se eram intocáveis, como alguém, em particular um pobre escriba, neles poderia neles tocá-lo. Ó Ledo Ivo engano! Os textos de Barreto despertavam no leitor o prazer da leitura.

E toda leitura, pelo menos para este escriba, tem de ser prazerosa. Está mesmo é faltando em nossos críticos e cronistas a simplicidade que pautava os escritos de Barreto Neto. Escrever fácil é difícil. Barreto escrevia fácil. Escrever fácil como Barreto escrevia é difícil. E muito.

Outra boa e risível lembrança vem daquele dia em que um dos nossos intelectuais de textos considerados difíceis, chatos, fez com que o erudito Barreto Neto se achasse “velho e burro”. O intelectual, confessou, estava cada vez mais “profundo e difícil”. Sorrimos juntos. Um intelectual ininteligível e um Barreto velho e burro.

A característica maior do estilo Barreto, e todos os que tiveram a felicidade de ler as suas bem-traçadas publicadas nos mais diversos jornais da imprensa provinciana puderam comprovar, era a simplicidade. Barreto nunca complicava. Se queria escrever que o rei estava nu e com a sua – dele, do rei – bunda cheirando mal, nunca escrevia que ele andava mal vestido e exalando um cheiro desconhecido pelos súditos.

O tempo passou e, convidado por Barreto, escrevi em quase todos os jornais pelos quais Barreto (sic) passou. “Véio, vamos pra lá… Pagam uma besteira. Mas as tuas escritas casam bem com a BA”. E acabava aceitando por causa dele. Para aprender. Ler suas coisas. Ouvir certeiras opiniões. “Véio, tu não acha (embora conhecendo a língua, como poucos, gostava desse falar Zé da Silva) melhor cortar aqui?”. Não tinha de achar. Se achava, encontrou primeiro, que cortasse. E por que não agradecer, uma vez que nunca houve de sua parte qualquer intenção de censura, pelo corte? Tinha razão. Depois de publicado, este malabarista de palavras veria que, sem o corte, o texto acabaria numa hemorragia de palavras.

Em um dos nossos últimos encontros, ele na velha roupa de carne e osso, eu mais gordo e mais velho, mais carne do que osso, se a memória não me falha, indo para a Unimed, onde, se a memória não continua falhando, trabalhava, doido para assistir a uma “coisa nova”, o crítico recomendou: “Véio, dá uma olhada no filme do Nicholas Ray, o Jonnhy guitar”. “Um filme de 1954?, obtemperei, uma coisa nova?”. Barretinho estava coberto de razão. Mais uma vez acertara. O filme de Ray Nicholas será uma “coisa nova” ainda por muito tempo. Ele via o que muitos dos nossos críticos, apesar dos constantes exames de vista, não viam. E, se não via tudo, via o que os outros, ainda hoje, não veem. Os meus sinceros agradecimentos. O escriba bem que poderia ter aprendido mais.

Que a terra lhe seja leve com papel jornal.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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