Crônicas

O imortal filho de escrava Eliseu Cesar e o filho imortal de Ramadinha Seráphico da Nóbrega

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Elizeu Elias Cezar. Pausa. Ou seria Eliseu Elias Cesar? Tudo bem. Eliseu foi o Patrono da cadeira número 14, da Academia Paraibana de Letras. Pois é. Se todos os Estados tem a sua Academia e os seus imortais, também temos a nossa. E os nossos. Todos, porém, sabendo que imortais de verdade eles não são. Afinal, a vida é breve e a arte longa. Essa sim, imortal.

Francisco Seráphico da Nóbrega, pai do amigo Ariosto Nóbrega, esse sem nenhuma pretensão de entrar na mesma Academia onde o pai alcançou a condição de “imortal”, foi o Fundador da cadeira do Patrono Eliseu Elias. Os sucessores? Tudo bem: Celso Novais, Ronaldo Cunha Lima e, atualmente, ali bem sentado, merecidamente, o artista Flávio Tavares, esse que, segundo o crítico Guido Jacob Klintowitz “Está entre os mais importantes artistas do Nordeste”. Um dos mais respeitados artistas brasileiros figurativos de sua geração. Se não também tivesse dito isso, eu diria. E não seria “segundo”, mas primeiro.

A cadeira número 14 está definida, ou, como diria o Oscar Wilde, lembrando que definir é limitar, limitada: Seráphico da Nóbrega e Eliseu Cesar. Os dois nesse espaço e momento merecem toda a minha atenção. As minhas mal-traçadas. Um negro filho de escrava, e um intelectual/imortal nascido no município de Santa Luzia, sertão da Paraíba, na fazenda Ramadinha. Pausa. Não tecerei quaisquer comentários a respeito da Fazenda. Não conheço a referida. Mas, mesmo sem conhecê-la, imagino que ali o imortal viveu como menino Zé Lins vivera no Corredor do seu Engenho.

O discurso de posse do imortal Seráphico da Nóbrega. A forma com que ele, professor e intelectual reconhecido e admirado por aqui e em alhures, essa uma “cidade” por muitos desconhecida, saudou o Patrono da cadeira da qual foi fundador, me pegou de jeito pela excelente descrição do “Poeta Negro” Elizeu Cesar. O discurso, sem nenhuma dúvida, deveria ser copiado e distribuído pelas nossas escolas públicas e privadas, num o desses 20 de Novembro. O seu – dele -discurso pegaria tão bem quanto a bonita e contada e recontada história em versos e prosa do Zumbi dos Palmares. E que discurso! Mais que isso, nesse dia, o imortal Seráphico da Nóbrega escreveu.

Não vou transcrever, agora, o discurso do imortal. Deixo para as próximas palavras. Outras. Digo apenas que, modesto, embora soubesse usar a palavra falada e escrita como poucos, essa primeira pelo que ouvi dizer, Seráphico da Nóbrega, depois de pedir a concessão da presidência para apresentar o patrono da cadeira que estafa fundando, foi perfeito: “Se vosso presidente me conceder a palavra, advertisse somente traçasse eu o panegírico (sic) Eliseu Cesar, haveria alegrias nos presentes.”

E sai traçando um perfeito perfil do negro Eliseu, com a maestria, a calma de um bom professor e leveza do intelectual que aprendeu, mesmo “imortalizado” naquele momento, antes mesmo do poeta Drummond descobrir, que “Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente sentimos.” E falou fácil. E falava.

Eliseu César? Aprendi com o imortal de Ramadinha: “Nasceu em 1871, sendo filho natural de Maria Joaquina de Freitas, escrava, segundo a tradição oral, e que depois da Abolição, foi quitandeira, profissão também – vejam só! – de mãe de José do Patrocínio”. Ah, e era o único negro de ascendência paterna.

Salienta ainda o imortal que grandes negros brasileiros, como José do Patrocínio, Cruz e Souza e Eliseu Cezar, “Tiveram mãos não escuras que, na primeira fase da vida os afagaram e os projetaram até o caminho, em que favorecido pelo talento, conquistaram imperecível renome”. Mãos não escuras! Figura espetacular. Não precisava dizer/escrever mais. Mas escreveu. Escreveu mais.

O discurso de Seráphico da Nóbrega, apenas ele, já merecia ser transformado naquele livro que ele não escreveu, espécie de “Catatau” leminskiano que carregava na cabeça, mesmo escrito e deixado de lado, para todo lugar que ia. Mas, Eliseu Cesar, infelizmente, ainda é um desconhecido na sua terra. Nem a condição de imortal fê-lo “viver” na memória dos colegas. Ah, e fora dela, da Academia de seus conterrâneos.

O imortal e professor Francisco Seráphico da Nóbrega, naquele seu histórico discurso, mostrou o caminho. Tanto que, graças ao filho, Ariosto Nóbrega, esse que o pai me apresentou, estou por aqui tentando não pegar atalho. Mas voltarei, nesse mesmo espaço, a contar mais um pouco da história desse nosso imortal que, mesmo negro,assim como este “Malabarista de Palavras”, não passará em branco pela nossa história. O discurso conta tudo. Ele contará.

Aguardem. Voltarei ao assunto.

Em tempo: Eliseu Elias Cesar publicou “Algas”, com 22 anos de idade, e foi comparado a Castro Alves, entre outros românticos do seu tempo.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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