Crônicas

O Kafka que o meu sobrinho desconhecia

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Eu contava o que sabia sobre Kafka, e ele acompanhava com de olhos e ouvidos abertos. Sinto que desejava saber mais sobre esse escritor e advogado. Advogado como o senhor? Era. Só que Kafka era um pouco diferente deste “senhor” que estava em sua frente. Kafka não se dera bem com o mundo do Direito. Eu? Mais ou menos. Acho mesmo que pelo fato de optar em viver errado Kafka não tenha dado certo no mundo do Direito.

Kafka era um irresponsável. E negar esse fato ninguém há de. Nunca foi de cumprir horários. E não estava nem aí para os colegas que chamavam a sua atenção por agir assim. Marcar ponto de entrada e saída no instituto de Seguros de Acidentes de Trabalho da Boêmia – onde trabalhava – era para ele um saco. Pausa. Se a Boêmia, a cerveja, fazia parte da vida boêmia de Kafka? Poderia ser. Mas no caso, explico-lhe em poucas palavras, o Boêmia aí é uma região do seu país.

Na verdade Kafka não nasceu para ser um trabalhado de uma empresa de seguros. Em qualquer outro lugar, considerando a vida boemia que levava e a sua obstinação em ser um escritor famoso, pois sabia que a luz do túnel que encontraria um dia em seu caminho escuro e tenebroso como as suas histórias e contos estava na literatura, seria sempre um “irresponsável”.

Olha aqui, fiz questão de mostrar ao meu sobrinho curioso o que Kafka escreveu para o seu grande e talvez único – não conheço outro – amigo que teve por aqui antes de trocar de roupa e se mudar para outra cidade, o Max Brod. Entrei, vasculhei os meus alfarrábios e numa folha datilografada em letras vermelhas – por que em vermelho? Não me lembrava -, encontrei. Li para ele:

– “Você não faz ideia de como estou ocupado… As pessoas tropeçam em andaimes e caem por cima de máquinas como se estivessem bêbadas. Todas as pranchas tombam, todos os aterros desabam, todas as escadas escorregam, tudo o que é erguido cai, tudo o que é posto para baixo atira alguém para cima. E todas aquelas jovens em fábricas de porcelana que constantemente se arremessam por lances inteiros de escadas carregando montanhas de louças provocam-me dores de cabeça”.

Em síntese, assim mesmo, sem muitas palavras, recuperando-me ainda do impacto, disse-lhe no final da leitura: Kafka era tão genial quanto chato! Pausa. Ainda bem que apesar de reconhecer a relação era mais genial do que chato. Não tinha dúvidas.

E o lado pessoal do soturno escritor? Fosse hoje, mesmo sendo feio e baixinho como era Jean Paul Sartre, um comilão que todo mundo sabia e muitas gostavam de ser comidos por ele, e até Simone de Beauvoir que sabia de tudo nunca dissera nada, Kafka seria considerado um moderno Don Juan. Era o cara! Em se tratando de mulher era o cão chupando manga e um garanhão capaz de chupar cana e assoviar ao mesmo tempo. Se a mulher desse sopa ele não somente tomava, mas comia o que nessa sopa estivesse.

Mas nessas “comidas” uma questão freudiana atacava Kafka. Todas as mulheres que ele “passava” ou eram virgens ou prostitutas. E não sabem aquele tipo de comilão que depois de uma bem dada nada mais que queria saber dessa que lhe dera? Pois é. Kafka era assim. Com ele não tinha nada dessa história de “ficar”. Nunca ficava! Enfincava. Apenas.

Por fim, Kafka acabou ficando com aquela que já cansado de tantas comidas e abandonos depois da “barriga cheia”, escolheu para esposa. Casou. Mesmo assim, casado, dizia ser puto com essa condição: “O coito é o castigo pela felicidade de estar junto”, dizia. Pausa final. Se o meu sobrinho quiser e acredito que quererá, pois senti que ficou muito interessado nessa “parte intima” do escritor, conto mais.

Até Quinta, Isabelas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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