Crônicas

O ladrão e a Vendedora de Seguros

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Quinta-feira, 16 de junho, no jornal o Globo (crônica publicada originalmente em 29.06.08), saiu uma nota contando o assalto sofrido por uma vendedora de seguros no subúrbio. Não se ficou sabendo se ela vendia seguros no subúrbio ou se só morava lá; ou ambas as coisas. Não importa. O ladrão já estava se retirando, como fazem os ladrões corriqueiros, quando a moça, aos prantos, implorou para fazer uma última ligação no seu celular roubado, pois não sabia como sair dali e queria que o marido a buscasse.

Antes de prosseguirmos, fica a questão: como não sabia sair de um lugar no qual acabara de chegar? Não importa. Podia ser super distraída. O fato foi que o ladrão, contrariando todas as expectativas, cedeu ao pedido. Só que…o marido, em vez de ajudar, deu uma bronca na mulher e a mandou se virar.

Fica a dúvida: será que ele desconfiou de algo? A mulher poderia ter saído com um amante, depois brigado e ele a teria deixado lá. Será que a nossa vendedora de seguros andava aprontando ou o seu marido era apenas um crápula? O mundo está cheio de maridos assim. E mulheres aprontando também. Não importa. O ladrão pegou de volta o celular e, como normalmente fazem os ladrões, saiu. A mulher, então, caiu em lágrimas e ficou ali sozinha, até que…acredite de novo, o ladrão voltou, com pena, e lhe deu cinco reais para a passagem de ônibus. Isso importa. Fosse um ladrão comum, não teria dado bola à aflição de sua vítima. Mas ele não era um meliante qualquer, tinha coração. Talvez estivesse apenas passando por uma necessidade premente, quem sabe até com chance de recuperação. É o que se costuma chamar de marginal social. Mas, no instante em que ele volta e dá o dinheiro do ônibus, mostra sentimento, emoção. Se tivesse deixado para o táxi, poderíamos suspeitar de más intenções, ou deboche. Também se demorasse mais ali a conversar, certamente ela acabaria lhe vendendo uma apólice.

Ficamos sem saber, no entanto, se o ladrão informou sobre qual ônibus tomar, afinal ela estava perdida. Não importa. Um ato de solidariedade como esse, cada vez mais raro, foi o que chamou a atenção.

Pode-se intuir que a mulher quando chegou em casa, pediu satisfações ao marido; não lhe contou nada; ou ainda, na melhor das hipóteses, atirou-lhe um jarro nas fuças. Se bem que, contagiada pela generosidade do ladrão, ela até pudesse lhe perdoar a atitude de verme.

Bem que podia aproveitar o ensejo e separar-se, embora nunca se saiba da real situação financeira de cada um, mormente dos limites salariais de uma vendedora de seguros. Neste caso – casa de ferreiro -, seguro morrendo de velho. Não importa. Com certeza, aquele casamento nunca mais será o mesmo.

Quem sabe o ladrão ainda escreva uma carta, telefone ou mande um recado… O amor costuma ter desses mistérios.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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