O mascate Bauducco

by Bia Mies | 28/01/2018 10:28

O ambulante entrou no 473, enquanto Flávia dirigia-se ao Novo Rio. Era uma manhã ensolarada e relativamente fresca, algo como um ponto fora da curva na meteorologia do verão carioca. Flávia pensava em Inácio, que a encontraria no Terminal Rodoviário só para fazer hora, enquanto esperariam juntos pelo embarque de seu ônibus intermunicipal. Sujeito boa pinta, o Inácio. Flávia pensava em como tinha sorte por ter alguém assim como namorado quando o mascate começou seu discurso sobre o que trazia naquela manhã, produtos Bauducco. Um homem de aparência humilde, com sacolas plásticas cheias de bolos e biscoitos. Seu discurso era repleto de graça e propriedade, como ele mesmo destacou. Foi enfático no fator “nada da Bauducco leva margarina!“, explicando didaticamente, com o auxílio de uma sacola plástica (dessas de mercado, preta):

– Estão vendo esta sacola? Vocês comeriam plástico? Claro que não! Mas se eu transformasse esse plástico em um creme gostoso, vocês comeriam? Aiiiiiií, sim! Então! Margarina – não importa a marca – é plástico! Não comprem produtos com margarina. Faz muito mal. É plástico. E olha que não estou falando à toa. Tenho propriedade!

O 473 com destino a São Januário não estava cheio. Mas todos os bancos ocupados só tinham olhos para o vendedor, magnetizados.

– 1 é R$1,00, 3 sai por R$2,00. Olha só, gente, que descontão!! Cada um sai por sessenta e seis vírgula seis décimos de real! Quer mais promoção? Então vai: 8 por R$5,00! Não tá bom? A caixa toda por R$9,00!!

Flávia, que era toda correta, tinha um discurso pronto para defender sua política do “isso não é certo, a mercadoria vendida pela ilegalidade tem proveniência duvidosa, eu não compro, atitudes assim fomentam roubos etc e etc…”, não conseguiu se desvencilhar da simpatia daquele sujeito. Um talento comercial nato.

– Validade: mês 7 – desse ano, tá galera?

E mesmo sendo intolerante à lactose, estando no primeiro assento ocupado entre o businessman e seu trajeto de vendas, não pode conter-se:  sacou 2 reais da bolsa, optou por 3 bolinhos e disse ao ambulante, animada:

– Você é muito bom vendedor!
– Obrigado!

O cara é um gênio das vendas! Tem carisma, seu discurso prende a atenção e é cheio de técnica”. Enquanto se pegava pensando em quanto talento anda sendo desperdiçado por aí, por falta de oportunidades, se deu conta dos bolinhos. O que faria com eles? Pensou nos moradores de rua que ficavam na passagem coberta de Copacabana. Não era nada demais, mas sempre que passava por lá, se sentia na obrigação de doar-lhes alguma coisa. Como sua viagem não se prolongaria por mais de dois dias, deixaria os bolinhos na bolsa e os entregaria, então. A validade ia até julho, como bem informou o vendedor.

Ao fazer uma curva, Flávia olhou para trás e notou que o ambulante se despedia sorrindo. Depois de vender algo para todos – detalhe todos os passageiros compraram algo – ele saltou do veículo com um animado “obrigado, pessoal!”. Definitivamente é uma lástima gente assim não ter um emprego justo. O mercado informal tem dessas pérolas! Ao puxar a cordinha pela proximidade do seu ponto,  Flávia desejou que essa informalidade fosse absorvida o quanto antes por uma economia mais justa. Ao descer, lá estava Inácio, aguardando-a com um sorriso.

Comentários

Source URL: http://cronicascariocas.com/colunas/cronicas/o-mascate-bauducco/