Crônicas

O meu Ita não nevega, o meu ita voa

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Vocês podem não acreditar. Tudo bem.  Lembrando do livre arbítrio, mesmo que se prove por a + b, a gente só acredita mesmo naquilo que deseja acreditar. Mas, agora, neste exato instante, ouvindo o “Peguei um  Ita  no Norte”, do preguiçoso Dorival Caymmi, lembrei do menino, pés descalços e braços nus, todo Jaguaribe, cantando sem saber que o Ita que ele imaginava nada tinha daquele outro que o preguiçoso Caymmi cantava.

A confusão era maior ainda por que, como todo menino, apressado, ele ouvia o Caymmi com a sua voz grave (grávida) de preguiça, e imaginava ser aquele Ita o que o Caymmi jamais imaginou. Era mesmo engraçado. Por mais que tentasse imaginar outra coisa não conseguia. E por muitos anos, mesmo em adulto, ouvia aquela voz grave engravidando os seus ouvidos com o seu “Peguei o Ita no Norte”, lembrando o Ita do quintal de sua infância.

Mas, afinal, o que seria um Ita para aquele menino que pôs seus pés no riacho Jaguaribe, limpinho de beber até morrer de sede matada, o mesmo riacho assassino que matou os dois filhos de Penha? Para ele, o Ita nada tinha de navio misto de cabotagem, nunca viajara entre as cidades que um dia, anos mais tarde, lá no Norte do país, conheceria.

O Ita do menino que todos os domingos, pelas manhãs, bem cedinho, árvores e peixes ainda dormindo, saía com  o irmão, Paulo, para pescar – somente anos depois, como aconteceria com o Ita, descobriria não ser um rio – no Rio Grotão, pequenas “chilapas”, como as tilápias eram chamadas, e cobiçados carás, peixes de peles crespas e olhares tristes, não viajava pelas águas, mas pelo ares.

O Ita dos seus tempos de Escola Industrial, Padaria de Rui de Brito e Zé Caretinha, o seu Mané fogueteiro, que não fabricava fogos, mas pintava no céu da sua infância as estrelas mais bonitas do São João, tinha a imagem de um pássaro. O Ita, para ele, era um pássaro. E quando ouvia o preguiçoso baiano, esse que não ouso mais dizer o seu nome, cantando que pegara um Ita no Norte para ir morar no Rio, ninguém conseguia fazer o menino imaginar outra coisa. Um pássaro.

Pelas campinas, pés descalços e braços nus, descobrindo o Casimiro de Abreu aos oito anos, o menino desembestava pelas terras de Dona Zaíra, coroa que morreu solteira e deixou tudo para a rainha do (Igreja) Rosário, como dizem as boas e as más línguas, em busca do seu Ita. Ele estava ali, nas margens do seu Jaguaribe, misturado aos papa-capins e caboclinhos.

Mas, como identificar o Ita?  A sua cor, o seu canto?   Será que ia ou vinha? Um vem-vem ou um vem mais não ia?  E não sabendo como seria o Ita, todo pássaro que passava, ou melhor, voava, poderia ser o Ita que ele ouvia na voz baixinha do Compadre Heráclito de Almeida, descansando a clarineta, no pequeno terraço da casa  de número 950, “nascida” na rua 12 de Outubro, do seu  bairro Jaguaribe.

Até que um dia, Jorge de Lima, com a sua Obra Poética, levou o menino a desconfiar de que o seu Ita não cairia no alçapão armando no sítio do peito. Por acaso, já interessado por poesia, sonhando, também, ser poeta, leu que o Jorge Lima,  embora nascido em Alagoas, mas apaixonado pela Bahia do preguiçoso,  cantava-lhe versos como “Bahia/eu te olho e te ouço/ de bordo do meu  itazinho pulador”.  Mas, ouvidos ainda limpinhos, sem precisar do auxílio luxuoso dos cotonetes, o menino ainda resistiu por um bom tempo. Um “itazinho pulador?” Não tinha dúvidas. Era mesmo um passarinho! O seu Ita, embora descoberta a verdade, nunca deixaria de ser um passarinho!

Até Quintas, Isabelas!

*Publicado originalmente em 19/06/2010 no CrônicasCariocas.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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