Crônicas

O pássaro de prata ganha os céus levando no bico o menino!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Naquele dia da partida do meu irmão Dapenha de volta para o aconchego que conquistou com todos os méritos na distante Ji-paraná, Erlandsson, o meu filho, apesar dos seus vinte e poucos anos, era menos menino do que ele. O avião o fazia menino sonhador que captava com os seus olhos de câmeras modernas de alto poder de definição todos os seus – dele, do avião – movimentos. Parecia de brinquedo! Ou melhor: a criança que sonhava voar um dia olhava o mais pesado do que ar como se fosse a coisa mais leve do mundo e o mais perfeito dos brinquedos de corda.

– É muito bonito! Uma beleza! Oh, bicho bonito danado!

Por mais exclamativas que sejam as expressões serão sempre insuficientes para descrever o seu olhar de menino curioso que se perde nos mistérios que fazem aquele monstro de ferro enorme como um edifício de muitos andares “se agarra nas nuvens e não cair”. Percebi – todos perceberam – que o barulho das turbinas soava aos seus ouvidos relaxante como um canção de ninar. E enquanto a aeronave – ele chama avião, o que na verdade soa mais poético e tem mais cara de menino – parecia assobiar, buscando a potência máxima de suas turbinas para decolar, ele falava sozinho:

– É a busca a potência máxima! A decolagem vai ser aqui mesmo, lá na cabeceira da pista! Uma velocidade e tanto! (fazia cálculos mentais). Uns cento e cinquenta a duzentos quilômetros por hora! È bonito! Muito Bonito! Lindo! (Acha, finalmente, um adjetivo que expressa melhor a sua admiração por aquela máquina voadora). È somente decolar e manter na rota! Tudo é muito bonito!

A potência máxima, enfim, é alcançada. Bem devagarzinho o avião vai se arrastando. Agora são toneladas de ferro deslizando com a elegância de um patinador numa pista de gelo. Tudo ele acompanha com olhar. Não perde uma cena. Segura levemente o manche, e certifica-se de que o mesmo se encontra posicionado de forma a manter-se ainda na pista. Agora ele é o piloto. Sabe que os passageiros, inclusive o seu substituto, o piloto reserva, dependem exclusivamente dele. Silêncio total.

O aeroporto Castro Pinto castra-nos a palavra. O barulho das turbinas dentro do peito dele é somente silêncio. Não tem pressa. O piloto é seguro. Tem nas mãos o manche e o destino dos passageiros. Sempre soube para onde dirigir o próprio nariz. E agora o do avião. Deixa que o dito cujo deslize mansamente pela pista. Sabe que a velocidade é indispensável para que o seu brinquedo possa decolar. Há um bom tempo que não fala. Os olhos dispensam as palavras. Os movimentos do avião que agora desliza sobre a pista, bola de bilhar correndo livre sobre a mesa sem nenhum atrito, são os mesmos movimentos de seus olhos de manche.

E assim o avião pouco a pouco foge da nossa vista e vai ficando apenas na dele. O som das turbinas vai ficando distante. Mas enquanto todos correm para o lado oposto, procurando acompanhar a manobra do avião que se afasta para voltar em desabalada carreira em direção ao espaço, ele permanece no mesmo lugar, olhando a cabeça da pista, e esperando que ele aponte o seu nariz de ferro para o céu. Não quer perder o espetáculo da decolagem. São dois os momentos mais bonitos do voo: esse que agora espera, a decolagem, e a aterrissagem por ele imaginada em Ji-paraná.

Ah, lá vem ele! Os olhos se iluminam! E mais de que repente um zumbido longo corta o espaço do aeroporto, anunciando que a ave de prata vai voar. E quando todos pensam que vai continuar se “arrastando como cobra pelo chão”, mentalmente – o gesto diz tudo – ele puxa levemente o manche para fora e o pássaro levanta o bico! “Belo, belíssimo!”

Agora não fala, grita. Em seguida puxa o trem de pouso para dentro do estômago reduzindo o arraste. Sonha. Não está nem muito íngreme que pareça ficar totalmente na vertical, poste fixo no ar, nem muito na horizontal que pareça um “morto no espaço”. Por fim, segue em busca da estabilidade.

Nesse instante o ar – estamos, afinal, falando em avião – do coronel que parece sempre estar passando a tropa em revista perde a postura – sem perder, porém, a dignidade –, e surge o menino caruaruense que acenava para todo avião que passava sonhando um dia olhar o mundo lá de cima sem aquele sentimento de superioridade que faz pequenos até mesmo os grandes homens.

É assim que todas às vezes o meu amigo Bismarck se despede dos aviões que aterrissam por aqui trazendo ou levando amigos e lembranças. Um sujeito que gosta de voar, mas sempre, sempre mesmo, soube manter os seus pés no chão. A maior e mais bonita lição que, hoje o professor em constante processo de evolução, ensina aos seus alunos. Voar, mas saber manter as pés no chão! E lá vai o avião para mais perto de Deus!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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